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Quem tem medo da Matemática? Estratégias de superação da ansiedade pela disciplina em interesse
Especialistas discutem as causas da ansiedade matemática e apresentam estratégias pedagógicas para converter o receio em curiosidade.
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- A ansiedade matemática tem origem neurológica e afeta o raciocínio e a memória de trabalho. Suor nas mãos e taquicardia relacionadas ao dia da prova da disciplina, por exemplo, podem indicar ansiedade.
- O medo excessivo da disciplina gera evasão e desmotivação entre os estudantes, além de poder impactar até em futuras escolhas profissionais.
- Dentre os agravantes do quadro, está a pressão familiar.
- Ambientes acolhedores, apoio emocional e projetos e recursos digitais são possíveis soluções.

Uma interação cerebral, ativada em situações de ameaça real ou percebida, é capaz de nos impedir de acessar plenamente recursos cognitivos necessários para a compreensão e resolução de problemas. No centro dessa combinação estão a hiperativação da amígdala, associada a reações de medo e evasão, e, com a ansiedade gerada, a hipoativação do chamado córtex pré-frontal dorsolateral, uma região crucial para funções executivas como memória de trabalho, atenção e raciocínio lógico. Está aí a base neural da ansiedade matemática, um sentimento negativo associado à disciplina que tem gerado cada vez mais desmotivação entre alunos e fuga de atividades que envolvam a matemática.
Segundo dados do último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês) 2022, divulgados em novembro de 2024, cerca de 74,2% dos estudantes brasileiros de 15 anos relatam preocupação com a possibilidade de terem dificuldades nas aulas de matemática. Uma inquietação provocada pela incerteza diante de um futuro próximo.
“O córtex pré-frontal dorsolateral está ligado ao raciocínio matemático e à memória de trabalho. A memória de trabalho é o que permite, por exemplo, você fazer uma conta de cabeça. Quando há essa queda de ativação nessa região, a criança sente medo e, por causa desse medo, ela não entende — não é que ela não queira, é que o medo impede o entendimento”, explica a psicóloga Maristela Gragnani, que atua há mais de uma década com atendimento psicoterapêutico, integrando abordagens psicanalítica e cognitivo-comportamental para crianças e adolescentes, com ênfase em transtornos do neurodesenvolvimento, dificuldades de aprendizagem e orientação a pais.
Realizado a cada três anos pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Pisa ainda apontou que 65,1% dos alunos brasileiros se sentem ansiosos com a possibilidade de reprovar em matemática, enquanto a média dos países membros do grupo gira em torno de 55%.
As mãos transpiram, o coração dispara, a mente fica em branco. A princípio, o que pode ser entendido por docentes como uma simples dificuldade com números seria, na verdade, um bloqueio emocional que poderia gerar consequências imediatas, como frustração e queda de desempenho escolar, ou resultados mais profundos, como afastamento de carreiras ligadas à ciência, tecnologia e engenharia.
Pós-graduada em Neuropsicologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (CEPSIC-HCFMUSP) e especialista em Reabilitação Neuropsicológica, Maristela Gragnani possui formação complementar em Neurociências e Neuropsicanálise pelo Centro de Estudos em Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pelo Centro de Estudos de Neurologia Prof. Dr. Antônio Branco Lefèvre da Universidade de São Paulo (USP). A psicóloga conta ser bastante comum a associação equivocada entre discalculia – um transtorno de aprendizagem que afeta a habilidade de uma pessoa em compreender e realizar tarefas matemáticas – e a ansiedade matemática.
“Há alguns anos, atendi uma adolescente de 15 anos que estava sendo tratada como se tivesse discalculia. Contudo, ela enxergava formas, fazia associações. Fizemos uma testagem completa, entrevistas com pais e a escola, e vimos que a questão não era uma dificuldade de aprendizagem, mas sim um medo exagerado, uma evitação. Ela evitava ver números. Quando tinha prova de matemática, sentia dor de barriga, não queria ir. Era uma esquiva real. E, se ela estava se esquivando, não poderia ser só dificuldade com números — há uma carga emocional ali”, afirma.
Segundo Maristela, essa resposta negativa tende a se manifestar e se agravar entre adolescentes, especialmente diante da pressão por desempenho em avaliações como o Enem e vestibulares, onde a matemática costuma ter peso significativo, ou em casa, pela pressão e rigidez de responsáveis. “‘Você tem que estudar, Matemática é fácil’, costumam dizer. Ou o contato com um professor mais rígido, que dá um retorno [ao estudante] ruim. Aquilo fica marcado para sempre, como se ele ou ela fosse ruim mesmo. E aí você monta um cenário em que a criança e o adolescente começam a acreditar nisso.”
Os dados negativos associados à disciplina não são uma exclusividade do Brasil — o Pisa mostra que, globalmente, a ansiedade matemática aumentou na última década. E os efeitos são concretos: os países que registraram níveis mais altos de ansiedade também apresentaram menores índices de autoeficácia, ou seja, de confiança dos alunos em sua própria capacidade de lidar com a disciplina.
Em comparação com a edição de 2012 do Pisa, o salto é preocupante: há dez anos, 49,3% dos brasileiros diziam ficar nervosos ao solucionar problemas matemáticos. Em 2022, o índice subiu para 57,2%. Cerca de 690 mil estudantes de 81 países fizeram o teste do Pisa em 2022 e o levantamento reuniu dados de alunos de 15 e 16 anos.
Um ensino que não reforce o medo
Mestre com licenciatura em Matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Fábio Barbosa de Oliveira acredita que a ansiedade matemática se manifesta principalmente pelo medo do desconhecimento. Muitos estudantes, ao se depararem com problemas matemáticos, sentem que não possuem as bases necessárias para resolvê-los, o que gera um sentimento de incapacidade. Essa insegurança, muitas vezes, é alimentada pela falta de compreensão de conteúdos anteriores ou pela ausência de acompanhamento adequado.
Professor da disciplina para turmas do ensino médio (1° ano) e do ensino superior de Matemática, além de docente do bacharelado em Administração no Campus Campo Maior do Instituto Federal do Piauí (IFPI), ele vê na falta de acompanhamento contínuo ao longo do percurso escolar um dos principais fatores que agravam essa relação com a disciplina.
“Nas turmas de 1º ano, encontramos muitos alunos que têm dificuldades para resolver questões com operações básicas, a ponto de não conseguirem sequer realizar as quatro operações fundamentais. Leciono a disciplina de Análise de Dados para o curso de Administração, com uma turma de 40 alunos. No primeiro momento, tenho observado que metade da turma tem dificuldades básicas em multiplicação e divisão. Aqueles que conseguem avançar no conteúdo encontram dificuldades no cálculo de porcentagens. A turma é composta, em sua maioria, por alunos que vieram de escolas públicas”, ressalta.
Quando questionado sobre experiências e projetos bem-sucedidos que se mostraram efetivos em reverter o quadro de ansiedade com a disciplina, ele, como é de se esperar, cita o exemplo de Cocal dos Alves, cidade a quase 300 km da capital Teresina, que conquistou quase 300 medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Privadas (OBMEP), projeto nacional dirigido há duas décadas às escolas públicas e privadas brasileiras.
“Mesmo não sendo mais tão incentivado o desejo de ser melhor (pelo menos é o que observo), ganhar uma medalha ou uma menção honrosa é, para muitas famílias, a primeira honraria que elas recebem. Assim, participar de competições nacionais representa para muitos alunos o desejo de representar não apenas a instituição, mas também a própria família.”
Na sua visão, o município é uma prova de que, com o devido incentivo, os alunos podem superar o medo e alcançar um bom desempenho: em 18 anos de competições, foram 299 medalhas, sendo 55 de ouro – 22 delas sendo conquistadas em apenas dois anos, entre 2016 e 2018. Entre as muitas histórias que renderam a Cocal dos Alves fama nacional está a de um estudante, Rickelmy de Brito Pereira, que, após se formar em Matemática, retornou como professor para a mesma escola em que estudou.
Contudo, Fábio Barbosa acredita ser fundamental criar um ambiente de aprendizado que combine disciplina, apoio emocional e acompanhamento contínuo. “Antes, eu passava muitas atividades para serem resolvidas em casa, mas percebia que muitas delas eram feitas de qualquer maneira ou copiadas dos outros. Dessa forma, passei a ficar mais próximo dos alunos e percebi que muitas das dificuldades enfrentadas não eram apenas relacionadas ao conteúdo. Muitos deles não tinham sequer tomado um simples café antes de sair de casa. Além disso, a instituição em que trabalho tem proporcionado acompanhamento psicológico para os alunos.”
Transformar medo em curiosidade
Além de mudanças nas dinâmicas de ensino-aprendizagem em sala de aula e até a adesão à gamificação e a recursos digitais, na visão de Maristela, nenhuma ferramenta substitui o acolhimento, tanto do estudante quanto do docente.
"O professor e a professora precisam estar atentos aos sinais de ansiedade, como o aluno fugir, suar frio ou inventar desculpas para não participar. Ao perceber esses comportamentos, é essencial que o docente não tente avaliar sozinho, mas que encaminhe para uma avaliação especializada. A abordagem para a ansiedade matemática deve ser multifacetada, envolvendo não só a preocupação com a disciplina, mas também o contexto emocional e psicológico do aluno. Não se trata apenas do aspecto cognitivo desses estudantes, mas também suas emoções e personalidade. Precisamos entender como eles lidam com a vida, como sua personalidade pode impactar suas reações, como a neuroticidade ou a conscienciosidade. A escola, os pais e os profissionais devem trabalhar em conjunto para apoiar a criança, o adolescente e mesmo o adulto. Intervenções adequadas podem evitar sérias consequências futuras.”
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