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Precisamos falar sobre a saúde mental dos professores
Ansiedade, insônia, burnout, depressão... Se você está passando ou passou por algum desses problemas, saiba que não é exceção. As pressões no ambiente escolar e
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- Dentre as causas do adoecimento mental dos professores, estão os baixos salários, a violência escolar, a sobrecarga e a falta de liberdade docente.
- Formações sobre saúde mental integrando todos os membros da comunidade escolar fortalecem a saúde mental e o diálogo entre responsáveis e escola.
- A formação docente deve incluir o manejo emocional, a fim de evitar a sobrecarga emocional dos professores.

Sobram motivos para as professoras e os professores da educação básica no Brasil se sentirem mentalmente adoecidos. Qualquer que seja a pesquisa consultada, saltam aos olhos fatores como baixos salários, descumprimento do piso nacional (no caso de parte dos estados e municípios), violência no ambiente escolar, desprestígio social, cobrança de metas, desamparo por parte de superiores, desrespeito de colegas, estudantes e familiares, sobrecarga de trabalho, infraestrutura deficiente nas escolas, carência de instrumentos pedagógicos, falta de liberdade para ensinar e burocratização da função.
O que varia é o peso de cada fator, a depender da rede, da estrutura disponível e da localização da escola.
“A escola reflete os problemas da sociedade. Os problemas de fora – vulnerabilidade social, violência doméstica, pobreza – chegam aqui e nós não estamos preparados para lidar com eles. Aí, somam-se o salário baixo e a jornada dupla, e vêm o estresse, a ansiedade, o burnout...”
Quem diz isso é Jair (nome fictício, já que o entrevistado exigiu a condição de anonimato), 50 anos, professor e supervisor escolar em uma região periférica na zona Sul de São Paulo, funções que desempenha pela rede pública municipal.
Em um levantamento conduzido em 2010 pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) – Pesquisa Saúde e Condição de Trabalho dos Professores –, 62,2% dos respondentes (num total de 1615 professores, diretores e supervisores da rede pública do Estado de São Paulo) reconheceram sentir sintomas de ansiedade, 50,3% apontaram angústia e 39,5% mencionaram ter insônia.
Quando questionados sobre diagnósticos recebidos, 48,5% afirmaram ter sido identificados como portadores de estresse, enquanto 26,6% foram diagnosticados com depressão. Para efeito de contexto, a TALIS (Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizagem), empreendida pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2018, apurou que, mundialmente, 18% dos docentes sofrem estresse contínuo e agudo relacionado ao trabalho. O estudo ouviu 260 mil professores e 15 mil líderes escolares de 48 países, entre eles o Brasil.
Na opinião do pedagogo e professor de História afastado Fábio Santos de Moraes, 1º Presidente da Apeoesp, a escola, que deveria ser um espaço de alegria, se transformou em “lugar de medo, de opressão. E o professor, que deveria ser o elemento central do aprendizado, sofre assédio institucionalizado e virou monitor de plataforma [digital de ensino], sem liberdade de cátedra, ou seja, sem liberdade para escolher como vai dar a aula e apresentar o conteúdo”. O que o sindicato chama de plataformização da educação é o modelo digital adotado pelo estado de São Paulo e por outros, como Paraná e Rio Grande do Sul, modelo que, segundo o presidente da Apeoesp e docentes ouvidos por esta reportagem, em vez de ajudar, sufocam.
“Esse sistema engessa o professor, e os alunos perdem o interesse. No final do dia, o docente está exausto e não conseguiu cumprir tudo o que a plataforma determinava. Esse modelo prejudica fisicamente o professor e traz estresse, síndrome do pânico e burnout”, afirma Moraes.
OS IMPACTOS DO TRABALHO
“O adoecimento relacionado ao trabalho envolve uma variável muito importante, que é o salário, mas estamos falando de um processo multicausal. Se o professor vai para a sala de aula e tem violência, dificuldade de realizar o trabalho, muita precariedade – a depender principalmente do sistema ou da rede de ensino –, isso tudo vai compondo um quadro de múltiplos elementos de tensionamento, que são muito perigosos, nocivos para a saúde mental”, avalia Jefferson Peixoto da Silva, tecnologista da Fundacentro (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Medicina e Segurança do Trabalho), mestre em Educação e doutor em Saúde Pública.
Autor da tese de doutorado Quando o trabalho invade a vida: um estudo sobre a relação trabalho, vida pessoal cotidiana e saúde de professores do ensino regular e integral de São Paulo e um dos organizadores do livro Seminários – Trabalho e saúde dos professores – Precarização, adoecimento e caminhos para a mudança (Fundacentro, 2023) – Jefferson lembra que o ser humano procura compensações na vida, então “se as condições de trabalho forem boas, mas o salário ruim, o professor pode relativizar o valor que recebe”. Porém, quando nenhum desses elementos é positivo, os riscos crescem. “Há muitos estudos que mostram correlação estatística significativa entre salário e adoecimento. Ou seja, na medida em que a pessoa vai tendo dificuldades no trabalho e o salário não ajuda, isso vai se tornando mais e mais um forte elemento de potencial agravo ou de potencial risco ao adoecimento ligado ao trabalho”, esclarece o pesquisador.
Atualmente, um dos grandes problemas da educação pública no Brasil é o volume de professores temporários: 50% do total, espalhados por todas as regiões. São profissionais que podem ser dispensados a qualquer momento ou enviados de uma escola para outra, o que traz enorme insegurança, como lembram os entrevistados. “O vínculo com o grupo de trabalho, que poderia ser um fator de proteção mental para docentes que ganham mal, estão sobrecarregados, precisam ocupar-se de situações de violência, de vulnerabilidade social etc., fica impossibilitado”, explica a psicopedagoga Alcione Marques, especialista em Neurociência do Comportamento e diretora da consultoria NeuroConecte.
Ela afirma que todos nós estamos sujeitos a dois tipos de estresse, um que é interpretado como desafio e outro como ameaça. “O que os diferencia são os recursos que eu tenho para lidar com o desafio. Se eu não tenho esses recursos, se eu me vejo na posição de não saber, de não conseguir, então o desafio se torna ameaça.” Pensando sob o ponto de vista da clínica da atividade, abordagem psicológica tecida nos anos 1990 pelo francês Yves Clot, que faz uma análise das relações entre trabalho, saúde e subjetividade, Jefferson, da Fundacentro, explica que, entre outras razões, o trabalhador adoece quando seu trabalho é impedido. “Para ter sua experiência no mundo bem-sucedida, o ser humano precisa se sentir reconhecido, precisa ver sentido no que está fazendo”, afirma o especialista.
BOAS PRÁTICAS VÊM DE FORA E DE DENTRO
A consultoria NeuroConecte, de Alcione Marques e Adriana Fóz, educadora e especialista em emoções, tem como missão transformar as competências cognitivas e socioemocionais dos professores, preparando-os para a sala de aula.
Uma de suas principais referências é o trabalho do psiquiatra canadense Stanley Kutcher (hoje senador), especialista na saúde mental juvenil. Segundo Alcione, percebendo o sistema de saúde canadense sobrecarregado por suspeitas – muitas vezes não comprovadas – de transtornos mentais entre crianças e adolescentes, Kutcher difundiu a ideia de que o mais eficiente seria preparar os professores da educação básica para distinguir riscos reais. Foi assim que ele criou programas que influenciaram políticas públicas no Canadá e em outros países, como o Teach Mental Health, focado em graduandos em Educação que pretendem ser docentes e na formação continuada de professores que estejam lecionando.
Com base na experiência canadense e em anos de pesquisa própria, Alcione e Adriana desenvolvem projetos de saúde mental junto a escolas e redes de ensino, fornecendo formação à totalidade da equipe escolar, já que todos têm contato com os estudantes. “Como resultado, esses profissionais melhoram sua percepção sobre a própria saúde mental e se capacitam para identificar eventuais sinais de alerta no comportamento dos alunos”, afirma Alcione.
A identificação de sinais faz parte do processo de promoção do bem-estar psicológico e de prevenção de transtornos mentais preconizado pela OMS (Organização Mundial para a Saúde), e a escola tem papel fundamental nessa estratégia, já que “75% dos transtornos começam antes dos 24 anos e 50% antes dos 14 anos”, de acordo com o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) e coautor de Saúde Mental na Escola – o que os educadores precisam saber (Artmed Editora, 2014), entre outros livros. “A melhor estratégia em custo-benefício é alimentar os professores de informação e habilitá-los para identificar e encaminhar essas situações”, afirma o estudioso. Em 2018, ele criou o instituto Ame Sua Mente, que elabora e realiza projetos sociais com base na ciência e foco na promoção da saúde mental, tendo o ambiente escolar como principal palco de intervenção.
Formações como as oferecidas pela NeuroConecte e pelo Ame Sua Mente trazem outro benefício significativo: “Fica claro o limite de atuação do docente – esta é a grande sacada! Geralmente, o professor é requisitado como se fosse um super-herói. Mas ele não precisa saber tudo, resolver tudo.
Com a formação, ele entende que algumas demandas precisam ser encaminhadas para outros profissionais, a exemplo de psicólogos e psiquiatras”, declara o pedagogo Raí Mota, consultor educacional e assessor da Secretaria Municipal de Educação de Cruz, município cearense que em 2023 teve duas escolas com nota 10 no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Em 2024, a cidade iniciou o programa de ensino em tempo integral do 6º ao 9º ano. Fez isso construindo uma escola nova, a ETI Francisco Benedito de Farias, e reunindo nela 64 funcionários e 315 estudantes de outras três unidades vizinhas que foram fechadas. O início não foi fácil, com dificuldades de integração entre os diferentes grupos de professores e, principalmente, casos de automutilação entre os adolescentes, como lembra a diretora, Maria Regiane Costa: “Eles tiravam a lâmina do apontador e iam para o banheiro se cortar. A gente não sabia o que falar. Como falar de suicídio?”.
Depois de um primeiro semestre desafiador, em agosto do mesmo ano a Benedito de Farias recebeu a equipe da NeuroConecte para uma formação-piloto em saúde mental que se estendeu por quatro meses, com etapas presenciais e à distância. “As consultoras montaram grupos focais para ouvir todos os segmentos envolvidos: os alunos, as famílias, os professores, os gestores e os demais funcionários”, conta Maria Regiane.
Com base nas situações relatadas, vieram estudos de caso, relatórios e um plano de ação construído junto com a equipe escolar para ser colocado em prática nos meses seguintes. A diretora comenta os benefícios que o trabalho trouxe: “Antes, a gente se envolvia demais, absorvia os problemas dos alunos. Agora a gente sabe que tem de ouvir, ajudar no que for possível, mas não adoecer junto com o estudante. A gente precisa estar bem para acolher melhor”.
O resultado foi positivo: até julho de 2025 (quando esta reportagem foi fechada e a escola se preparava para um reforço da formação), nenhuma nova ocorrência de automutilação foi registrada na escola, segundo Maria Regiane, e os casos de bullying caíram. “Resumindo em uma palavra, nós ganhamos segurança. Segurança para lidar com as situações”, afirma. O sucesso obtido na Benedito de Farias impulsionou o projeto, e a Secretaria de Educação decidiu levar a formação para a segunda escola de tempo integral inaugurada em Cruz, a EMTI Professora Geralda Miranda dos Santos – o trabalho teria início em agosto de 2025 (logo após o fechamento desta reportagem).
“O que há de comum entre as experiências positivas é o elemento humanização das relações. O trabalho do professor é relacional: com o aluno, com a direção, com os colegas, com as famílias, com a comunidade. Essas relações precisam estar saudáveis e se pautar por valorização, por reconhecimento, por respeito”, avalia Jefferson Peixoto.
“TENTO NÃO SER UMA ESPONJA E ABSORVER TUDO”
Com 15 anos de experiência na educação Infantil e Fundamental, a professora Gislene Silveira Feitosa, 37 anos, viveu momentos muito difíceis em 2024, como parte do corpo docente da ETI Francisco Benedito de Farias, em Cruz, no Ceará.
“A escola tinha acabado de ser inaugurada e a equipe gestora ainda estava organizando as rotinas. Me perguntaram se eu concordaria em dar aulas de seis disciplinas para alunos do 6º ao 9º, porque me consideraram capacitada, e eu aceitei. O meu número de aulas não aumentou e eu continuei com o mesmo tempo de preparo. Eu conhecia quase todos os estudantes da escola, adolescentes de famílias carentes, e eles recorriam muito a mim quando tinham problemas – aliás, até hoje eles recorrem bastante à Tia Gislene. O ano foi passando e, quando chegou outubro, eu me sentia sufocada, chorava, não conseguia dar todas as aulas. Em casa, à noite, não dormia: ficava na cama, pensando, pensando. Não aguentei.”
Na época, a professora estava participando da formação em saúde mental e percebeu que não estava bem – e que precisava de ajuda. Falou com a diretora, foi atendida por um psiquiatra e tomou medicações controladas por alguns meses. O conteúdo que aprendeu, os momentos de escuta criados na escola, o apoio dos colegas e os remédios ajudaram a professora a retomar as rédeas da própria saúde: “Eu entendi que preciso separar as coisas. Continuo me preocupando muito com os alunos, mas tento não ser uma esponja. Ser ouvida, poder conversar com a equipe, traz alívio e, às vezes, surgem soluções para os problemas”.
Na história de Gislene, um detalhe chama a atenção: “Quando as instrutoras da formação falaram sobre TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade], eu descobri que quem tem esse transtorno costuma falar repetidamente sobre algo e esse algo é justamente um ponto de atenção, uma ferida aberta. E eu tenho TDAH. Então, agora, eu estou atenta para não ficar repetindo e me machucando mais ainda.” Os alunos conhecem condição da professora e quando o transtorno causa alguma interferência na aula, ela conta que os adolescentes logo brincam: “Eles falam: ‘Ih, hoje o TDAH da Tia está terrível’. E isso me ajuda, então sempre peço que me alertem. O fato de eles saberem do meu TDAH não tira a minha autoridade de forma alguma. Eles me respeitam bastante”.
Em 2025, sem que houvesse redução de sua carga horária, Gislene passou a dar aulas apenas de História e de Cidadania, “o que me ajudou muito – estou no céu!”. Por sugestão das consultoras da NeuroConecte, ela venceu a resistência que tinha e começou a fazer musculação. Continua não gostando da atividade, mas gosta do que vem depois: “Chego em casa cansada e durmo!”. Sem remédios.
PARA A PROFISSÃO SER SUSTENTÁVEL, O MODELO PRECISA MUDAR
A carência de mão de obra preocupa quem se dedica a pensar a educação no Brasil. Preocupa pelo aspecto de contingente, já que são poucos os jovens que declaram querer ingressar na profissão; preocupa pela qualidade da formação que os futuros professores estão recebendo nas faculdades e porque quem está na ativa nunca esteve tão sujeito a adoecer e deixar a sala de aula em função do estresse da atividade. “A gente já fala em uma epidemia de saúde mental entre os professores.
A profissão vai entrar em colapso se continuar dessa forma”, alerta Jefferson Peixoto. Para quem acha que a inteligência artificial pode eventualmente fazer as vezes do docente, o especialista da Fundacentro não mede palavras: “Eu estou convencido de que o professor tem papel cada vez mais importante na educação, principalmente nesse momento de transformação tecnológica, de inteligência artificial. Ele precisa de uma formação sólida, inclusive no manejo dessas ferramentas, para que elas sejam usadas como aliadas e não como substitutas”.
Para Alcione Marques, “nós temos uma escola estruturalmente adoecedora”. Mas a psicopedagoga também acredita que esse cenário pode se alterar caso sejam revistos aspectos como remuneração, formação, estrutura e recursos. “Não dá para não ensinar os professores a construir autoridade; não dá para querer que eles ajudem os alunos a desenvolver suas competências socioemocionais quando eles mesmos não passaram por esse processo. Não dá para imaginar que o professor vai ter práticas de autocuidado em saúde mental quando essas orientações são tão incipientes como no Brasil. Não dá para querer que o professor pratique uma atividade física quando ele tem dupla jornada de trabalho.”
Justamente pela função social do ofício do professor, a apreensão quanto ao futuro da profissão deveria furar a bolha dos especialistas e alcançar a sociedade inteira. “Falar do futuro da profissão é falar do futuro do país, e o futuro do país depende de bons professores e da boa formação dos cidadãos”, reflete Jefferson.
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