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Paula Belmino: a professora do sertão que transforma infância em poesia
Da tradição oral dos avós à aprovação em programas nacionais de leitura, a trajetória de uma educadora que encontrou na literatura a chave para ensinar, curar e sonhar
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- Paula Belmino, professora do sertão potiguar, transforma infância e experiências de luto em poesia e literatura infantil.
- Utiliza a poesia como ferramenta pedagógica, emocional e de mediação de leitura, com forte foco na infância e na EJA.
- Autora de “A Menina Que Sabe Chover” e “ABC do Brincar”, obras aprovadas no PNLD Literário 2023.
- Mantém o blog Poesia do Bem e sonha ampliar o alcance de seus livros e ações de leitura pelo Brasil.

Paula Belmino nunca planejou ser professora. Na infância, o que ela desejava era ser atriz, bailarina, cantora. Filha de Cícera Simões, professora que trabalhava em dois ou três turnos para sustentar os filhos, Paula cresceu em Lagoa Nova, no interior do Rio Grande do Norte, entre as árvores do sítio, a rotina simples da família e um universo inteiro de histórias.
A mãe, mesmo cansada, trazia para casa livros da escola. Não eram livros de literatura infantil, mas materiais de estudo, apostilas, livros de trabalho docente. Para Paula, bastava. Ela aprendeu a ler muito cedo, movida pela curiosidade e pelo encantamento com as palavras.
"Eu visitava a biblioteca municipal da minha cidade, que era próxima à minha casa" , lembra. "Na casa dos meus avós, Galdino Simões e Sebastiana Venâncio, eles não eram alfabetizados, mas contavam muitas histórias. Eu tinha repertório: a tradição oral, as cantigas, os acalantos, as rezas. Minha avó era benzedeira. Tudo isso fazia parte da cultura que me alfabetizou."
Foi entre esses livros e histórias contadas em voz alta que a poesia entrou na vida de Paula. Ainda criança, ela encontrou o poema O Pardalzinho, de Manuel Bandeira, em um livro de estudo da mãe. A leitura foi tão marcante que, até hoje, quando volta ao poema, ela se emociona.
O avô, que chamava de histórias de Trancoso e histórias da Carochinha os causos que contava, morreu quando Paula tinha cerca de sete anos. A ausência não apagou a presença simbólica. "É como se ele ainda vivesse em mim, porque eu lembro com muita saudade e muita verdade tudo que ele me ensinou", diz ela.
Enquanto isso, no sítio, a menina alimentava o próprio mundo imaginário. Quando a mãe trabalhava catando caju, Paula subia nos cajueiros e via castelos. Debaixo das árvores, transformava o chão em praia de areia fina. Em casa, escutava rádio, cantava, dançava e sonhava com palcos. Ser professora não fazia parte do plano.
A infância que nunca foi esquecida
Anos depois, já adulta e atuando na educação, Paula percebeu que aquela criança imaginativa nunca a deixou. Hoje, ela afirma que vê, nos olhos dos alunos, a menina que foi um dia. A infância, para ela, não é apenas uma fase biográfica, mas um eixo de criação, tema de escrita e público prioritário.
"A infância representa para mim tema, público e também uma espécie de compromisso" , diz. Ela afirma que escreve para as crianças que existem hoje, para a criança que foi e para a filha, Alice. E sonha que todas possam viver uma infância verdadeira, com sentido e significado, em contato com a natureza, brincando, explorando o ambiente com todos os sentidos.
Da sala de aula à descoberta da vocação
A virada para a docência veio quase por acaso. Em 1996, por volta dos vinte anos, Paula foi morar em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Depois voltou para sua cidade e recebeu o convite para dar aulas na Educação de Jovens e Adultos, a EJA. Estava terminando o magistério, havia passado para Pedagogia e viu na proposta uma oportunidade de trabalho.
Ela não se via professora. Mas se deparou com adultos que nunca tinham aprendido a ler, e aquilo a tocou profundamente. "Eu percebia que precisava ajudar aqueles adultos que não sabiam ler" , conta. "E, do jeito que eu podia, com esse amor pela leitura, tentei passar para esses jovens e adultos."
A experiência com a EJA foi marcante. Os alunos se alfabetizaram, e o processo se transformou em livro. A turma produziu uma obra artesanal, que Paula chama de Poetas da vida. Uns recitavam versos, outros escreviam. O material foi datilografado e distribuído nas escolas da cidade. O resultado não foi apenas pedagógico, mas simbólico: quem antes não dominava as letras agora se reconhecia autor.
A partir daí, Paula passou a atuar com turmas de primeiro ano e, depois, com disciplinas do sexto ao nono ano. Em todas as etapas, a literatura ocupou o centro da prática. Ela transformava conteúdos em versos para facilitar a compreensão. Lembra, por exemplo, de quando trabalhava Ciências e decidiu explicar o que era uma célula por meio de um poema. "Tudo eu fazia em poema para os alunos aprenderem" resume.
Luto, maternidade e recomeço

A vida adulta, no entanto, não se fez apenas de conquistas profissionais. Paula enfrentou um luto profundo.Antes de viver a maternidade com Alice, ela perdeu o primeiro filho na hora do parto. Em seguida, sofreu um grave acidente. O impacto dessas experiências a marcou de modo definitivo.
"Eu perdi meu primeiro filho, sofri um grave acidente e só depois eu me tornei mãe" relata. Esse intervalo, entre a perda e a possibilidade de um novo começo, foi atravessado pela escrita. A poesia, que já a acompanhava desde a infância, ganhou uma função diferente. Passou a ser também lugar de desabafo, tentativa de compreensão, busca de sentido.
Quando, mais tarde, Paula engravidou novamente e Alice nasceu, a maternidade representou um recomeço. A nova filha não apagou a dor anterior, nem substituiu o bebê que se foi. Mas abriu uma fresta de luz em meio ao luto e inaugurou uma fase de criação intensa, marcada pela presença da criança que acabara de chegar.
Foi nesse contexto que surgiu o blog Poesia do Bem. "Quando eu me tornei mãe, criei o blog Poesia do Bem. Eu queria mostrar que essa poesia transforma a gente, é algo sobrenatural que nos humaniza, que nos faz brincar, que nos faz voltar a ser criança", conta. No blog, Paula passou a publicar poemas de amor, textos sobre as experiências difíceis que viveu e crônicas do cotidiano com Alice.
A menina que nasceu depois da tempestade foi ocupando cada vez mais espaço na obra da mãe. Virou personagem, inspiração, interlocutora direta. "Alice é parte da minha criação, porque foi ela quem colocou ponto final no sentido da minha dor, do luto do filho que eu tinha perdido. Ela veio como um anjo, como se fosse arco-íris. Então, tudo era para ela. E até hoje as inspirações dos livros são dela. Tudo é por ela, é para ela.".
Essa presença não é apenas simbólica. Paula conta que já publicou livros sem mencionar o nome da filha na dedicatória e ouviu, com clareza, a cobrança afetuosa: "Mãe, por que isso aqui não tem dedicação para mim?" A pergunta revela o lugar que Alice ocupa na construção da identidade artística da mãe e reforça a fusão entre a Paula mãe e a Paula professora e escritora.
A menina que sabe chover

Toda essa trajetória afetiva se cristalizou em um livro que Paula considera um marco particular: A Menina Que Sabe Chover. O título nasce do poema Chuva no sertão e traz, em forma de literatura infantil, o olhar de uma menina que vive no semiárido e espera, ano após ano, o milagre da água.
"Essa menina, na verdade, sou eu no meu mundo, no meu universo aqui no sertão" explica. Ao escrever sobre a chuva, Paula fala também sobre esperança, tempo, paciência, transformação e resistência. A obra, que carrega muito da sua vivência pessoal e da paisagem que a formou, acabou se tornando um divisor de águas. Embora ela tenha escrito muitos poemas e não goste de separar a própria produção em fases rígidas, reconhece que foi a partir de A Menina Que Sabe Chover que outros livros foram sendo publicados e mais leitores foram sendo alcançados.
O livro integra, ao lado de ABC do Brincar: brinquedos e brincadeiras de A a Z, a seleção do Programa Nacional do Livro Didático, o PNLD Literário 2023. Nesse segundo título, Paula convida as crianças a revisitar brinquedos e brincadeiras muitas vezes esquecidos na rotina das telas. A proposta é que elas descubram novas formas de brincar, construam brinquedos com as próprias mãos, compartilhem o tempo com os pais e, ao mesmo tempo, desenvolvam o gosto pela leitura.
"Eu convido as crianças a descobrir brincadeiras que hoje estão esquecidas e convido os pais a saírem das telas e virem brincar" diz. Ao propor isso, Paula resgata também sua própria infância no sítio, em contato direto com a natureza, longe de dispositivos eletrônicos.
Poesia como prática, não só como leitura
Na vida e no trabalho de Paula, poesia não é adorno. É prática cotidiana, ferramenta pedagógica e instrumento de transformação. "Eu levanto muito a bandeira da poesia, a questão da expressão, a questão da literatura como arte" afirma.
Ela acredita que a poesia tem um papel fundamental na vida das crianças, não apenas em momentos felizes, mas também quando é preciso lidar com a dor. "Eu sempre escrevo tudo que eu sinto através dos poemas. Então eu levo esse conselho para as crianças e para os leitores: que eles podem escrever, fazer diário daquilo que sentem."
Para Paula, a poesia é uma chave. "A poesia liga a chave na gente, ela acorda a gente, ela acalanta, nos conforta e também nos alegra. É como uma chave para a gente desabrochar palavras, desabrochar sentimentos, conhecer o outro, conhecer a nós mesmos e transformar a nossa realidade" descreve.
Em sala de aula, essa visão se materializa. Ela lê para as crianças e observa a reação do grupo. Diz que sente o olhar brilhar, o silêncio se fazer durante a leitura e, depois, o corpo despertar para a brincadeira e a expressão. Sua intenção é clara: que as crianças aprendam brincando, que possam reescrever suas histórias e que a ludicidade esteja sempre presente no processo educativo. "O que eu espero que as crianças sintam com a minha poesia é que elas se sintam felizes, que elas brinquem, que elas possam reescrever suas histórias e aprender brincando."
Fé, delicadeza e arte em tempos difíceis
A obra e a atuação de Paula também são atravessadas pela fé. Ela fala da crença como força que impulsiona, mesmo sem ser visível. "A fé é aquilo que a gente não vê, mas acredita. É essa esperança que levanta a gente todos os dias, que impulsiona, apesar das coisas tão tristes que acontecem", reflete.
Para ela, a arte tem o poder de embelezar até aquilo que é triste, não no sentido de mascarar a dor, mas de nos sacudir para que despertemos. "A arte nos sacode para a gente acordar, para a gente despertar para um novo mundo, para um novo sentido, fazendo com que a gente vença todos os dias a nós mesmos." Nesse contexto, a leitura surge como delicadeza, respiro, pausa. "Ler é suspiro, é acordar."
Essa visão aparece de forma concreta também nos trabalhos recentes com EJA. Em um período de readaptação funcional, Paula voltou a atuar com jovens e adultos por alguns meses. Em pouco tempo, viu alunos começarem a ler, emocionou-se ao levar livros literários para a sala e se impressionou com lágrimas e sorrisos arrancados pela arte. Ela sintetiza assim a experiência: "Nós somos feitos de palavras e, quando essas palavras são boas, elas nos abrigam e também nos impulsionam para agir e ser mais humanos."
Cuidado com a infância nas redes
Vivendo e produzindo em uma época marcada pela presença constante das redes sociais, Paula também reflete sobre os riscos desse ambiente, especialmente para as crianças. Ela utiliza essas plataformas para compartilhar poesia, registros da rotina com a filha, projetos e momentos de leitura, mas mantém um olhar atento e crítico.
"Hoje, com esse universo das redes sociais, em que às vezes a gente não sabe que chão está pisando, tem que ter muito cuidado" alerta. Ela conta que sempre foi cautelosa com a exposição de Alice, com o uso do celular e com as conversas on-line. Fala da importância de os pais manterem diálogo constante com os filhos e lembra que, por trás da tela, há muitas vertentes e intenções nem sempre claras.
Impacto, reconhecimento e sonhos
Ao longo dos anos, o trabalho de Paula alcançou escolas, famílias e leitores que ela talvez não imaginasse tocar. Professores adotam seus livros em projetos de leitura, crianças enviam vídeos recitando seus poemas, pais relatam mudanças de comportamento e de percepção depois do contato com suas histórias.
Paula se emociona especialmente quando visita escolas e vê o resultado do que foi feito a partir de seus textos. Ela descreve a alegria de observar o brilho no olhar, o silêncio respeitoso durante a poesia e, em seguida, a explosão de movimento nas atividades lúdicas inspiradas nos livros.
A aprovação de suas obras no PNLD ampliou o alcance de sua literatura, levando A Menina Que Sabe Chover e ABC do Brincar a um número maior de escolas públicas pelo país. Ainda assim, para ela, há muito a conquistar. "Eu já tenho realizado muitos sonhos através da minha escrita, chegando às escolas, aos professores, às crianças. Mas eu gostaria de poder levar isso a mais lugares no Brasil inteiro, poder chegar a outros estados, quem sabe a outros países" afirma.
Sonha em viajar com sua literatura, levando não apenas livros, mas experiências de mediação de leitura, rodas de poesia, encontros com estudantes e educadores. Quer estar presente quando a poesia faz silêncio em uma sala cheia de crianças e, segundos depois, vira riso, dança, gesto.
A professora que se descobriu na própria caminhada
Hoje, Paula é pedagoga, especialista em Literatura e Ensino, escritora, mediadora de leitura, criadora do blog Poesia do Bem, autora de livros reconhecidos nacionalmente e referência para muitos educadores que buscam integrar arte e aprendizagem. Mas, no início, ela não desejava ser professora.
Seu caminho foi sendo construído aos poucos, a partir de necessidades concretas e de um amor antigo pelos livros, pelas histórias e pela poesia. Ela mesma resume essa trajetória ao dizer que escreve pensando nas crianças, mas também como mãe e como professora, sempre vendo o futuro no presente.
"O que eu espero que as crianças sintam com a minha poesia é que elas se sintam felizes, que elas brinquem, que elas possam reescrever suas histórias e aprender brincando" , diz. No encontro entre sertão e chuva, entre dor e recomeço, entre sala de aula e blog, a obra de Paula segue abrindo portas para que meninos e meninas possam descobrir as próprias palavras.
E, fiel à crença de que a delicadeza é força, ela continua plantando, em cada verso, a possibilidade de um mundo mais sensível, mais atento e mais humano.
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