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No Sertão de Pernambuco, professor transforma resíduos da mandioca em soluções sustentáveis e leva escola pública ao Prêmio Educador Nota 10
Projeto nasceu da demanda do Quilombo do Carruá, em Carnaíba, e mobilizou estudantes a criar seis protótipos. Entre eles, o Filtro Tropinha, que reduz a toxicidade da manipueira e já acumula premiações nacionais
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- Professor de Química em Carnaíba (PE), Gustavo Bezerra levou para a sala de aula um problema ambiental das casas de farinha.
- A iniciativa nasceu no Quilombo do Carruá e virou seis protótipos para reaproveitar resíduos da mandioca.
- O Filtro Tropinha trata a manipueira e permite usar o líquido tratado na irrigação de hortaliças.

No município de Carnaíba, no Sertão pernambucano, a tradição das casas de farinha segue como símbolo de resistência e sustento para famílias de comunidades rurais, como o Quilombo do Carruá. Mas o que também fazia parte da rotina, o descarte de resíduos da mandioca, virou tema de investigação científica dentro da escola e resultou em soluções com impacto ambiental e social.
O professor Gustavo Bezerra, vencedor do Prêmio Educador Nota 10, conta que o ponto de partida do trabalho foi uma necessidade concreta da comunidade. Nas casas de farinha ativas da região, o processamento da mandioca gera resíduos como a manipueira (líquido resultante da prensagem) e a casca do tubérculo. “O projeto não foi voltado apenas para a criação de plástico”, explica. A meta era buscar sustentabilidade para uma produção de grande interesse local, enfrentando um problema que muitas vezes passava despercebido: o potencial poluidor desses materiais quando descartados no meio ambiente.
Da comunidade para a sala de aula

Segundo o professor, ao identificar a problemática, ele a levou para a sala de aula, onde havia estudantes do próprio Quilombo do Carruá, e apresentou possibilidades de enfrentamento. A partir daí, os alunos elaboraram seis projetos de pesquisa com foco em destinar e reaproveitar os resíduos das casas de farinha.
Entre as propostas desenvolvidas, Gustavo cita iniciativas como produção de blocos a partir da manipueira, geração de biogás usando o resíduo, “madeira” a partir das cascas da mandioca, plástico biodegradável a partir das cascas da mandioca e um filtro para reduzir a toxicidade da manipueira, o chamado Filtro Tropinha.
O alerta que veio da experiência: “Se animal forte morre...”

A conversa com os produtores locais revelou que o tema não era apenas teórico. Gustavo relata que muitos se mostraram surpresos com o debate, mas já conheciam a toxicidade da manipueira por vivências duras na própria comunidade. Em alguns casos, animais consumiram o líquido e morreram.
Eles também observaram degradação de plantas em áreas onde o resíduo era descartado inadequadamente. Foi nesse ponto que o professor reforçou a dimensão ambiental do problema: “Se os animais que são fortes tomarem aquele líquido eles morrem, então imagina o potencial poluidor desse líquido ao entrar em contato com o solo e com a água.”
Filtro Tropinha ganha destaque e vira ferramenta de irrigação

Entre os protótipos, o Filtro Tropinha se consolidou como um dos principais resultados do trabalho. De acordo com Gustavo, o projeto vem recebendo reconhecimento em premiações, incluindo o Prêmio Jovem Cientista, idealizado pela Fundação Roberto Marinho e pelo CNPq, além de estar entre os finalistas do Prêmio LED, da Rede Globo.
Na prática, o filtro tem sido aplicado pelas próprias estudantes da comunidade. Após o tratamento da manipueira, o líquido resultante passou a ser utilizado como forma de irrigação de hortaliças próximas às casas de farinha, apontando para uma solução que dialoga diretamente com o cotidiano local e com a segurança ambiental.
A premiação como recado sobre a escola pública

Ao falar sobre o Prêmio Educador Nota 10, Gustavo enfatiza que o reconhecimento vai além de um resultado individual. Para ele, a conquista simboliza uma região que, por muitos anos, enfrentou negligência, falta de investimento e preconceitos que atravessam a realidade escolar. “Não foi uma premiação que eu considero individual, foi uma premiação de uma região”, afirma.
O professor também destaca o sentimento de representação coletiva: “Muitas pessoas se sentiram representadas com essa premiação.” E resume, em uma frase, o cotidiano de quem mantém o trabalho pedagógico mesmo em cenários adversos: “Tendo ou não investimento a gente sempre faz o melhor, para que possa ofertar esses estudantes uma educação pública.”
Contexto: casas de farinha como renda e resistência

No Quilombo do Carruá, em Carnaíba, há cerca de três casas de farinha ativas, que seguem como fonte de renda e alimento para moradores, além de guardarem valor cultural. Ao conectar a escola a esse território, o projeto transformou resíduos em tema de pesquisa, aprendizagem e inovação e mostrou como a ciência pode nascer do chão da comunidade e retornar a ela em forma de solução.
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