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"Minha mãe me ensinou a não desistir": a história de Ana Carvalho, a menina que brincava de escolinha e virou a esperança de centenas de estudantes
Desde pequena, entre bonecas e cadernos improvisados, Ana carregava uma certeza que nem os dias difíceis conseguiram apagar: nasceu para transformar vidas pela educação
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- Desde criança, Ana Carvalho brincava de escolinha e já se via professora.
- Com o incentivo da mãe, Raquel, Ana enfrentou dificuldades para cursar Pedagogia, mas não desistiu.
- Hoje, no Grupo Movimenta, une leitura de dados (IDEB/IDESP) e projetos com afeto para apoiar redes e transformar escolas.

Tem gente que demora uma vida inteira para descobrir sua vocação. Ana Carvalho não. Ela tinha cinco ou seis anos quando já sabia. Enquanto outras crianças brincavam de casinha, Ana organizava suas bonecas em fileiras e fingia que ensinava. Quando cresceu um pouco mais, eram as crianças menores da vizinhança que se sentavam ao seu redor para aprender as primeiras letras.
"Eu nunca tive dúvida do que eu queria fazer. Desde criança, brincando de escolinha, eu era a professora. Eu fui crescendo e ensinava os menores. Nunca tive dúvida", relembra, com a voz ainda embargada pela emoção de quem encontrou seu propósito cedo demais, ou talvez na hora certa.
Quando tudo era incerto, menos a vocação

Mas querer não é poder. E, quando chegou a hora de cursar Pedagogia, a vida de Ana e de sua família atravessava um momento difícil. Dinheiro curto, futuro incerto, e aquele peso de quem pensa em desistir só para não pesar nos ombros de quem ama.
Foi aí que sua mãe, Raquel, entrou. Não com dinheiro, porque não tinha, mas com algo muito maior: a fé inabalável na filha.
"Minha mãe foi minha grande incentivadora. Sem ela, eu não teria conseguido. Foi uma época bastante difícil da nossa vida, e ela me incentivou a não parar, a não desistir."
Ana respira fundo e continua: "Eu falo que acordo todos os dias feliz porque eu faço aquilo que eu amo. Se fosse diferente, eu não iria trabalhar. Graças a Deus, tive a grande felicidade de sempre trabalhar com o que sempre sonhei, com o coração nos olhos, se assim posso dizer, com olhar brilhante, sorriso no rosto."
Raquel sempre falava das conquistas da filha com orgulho às amigas. Acompanhou cada passo da trajetória de Ana, inclusive seu processo seletivo no Grupo Movimenta. Em junho deste ano, Raquel faleceu, mas deixou um legado que Ana carrega todos os dias.
"Eu diria a ela que ela foi a melhor mãe desse mundo, agradeceria por tudo e diria o quanto eu a amo. Eu sempre dizia isso a ela", emociona-se Ana.
A mãe que acreditou. A filha que não desistiu. E centenas de crianças que, sem saber, seriam tocadas por essa história de resistência silenciosa.
O brilho nos olhos do professor que mudou tudo

Dentro da faculdade, Ana descobriu que pedagogia não era só sala de aula. Havia uma disciplina chamada Pedagogia Empresarial e havia um professor que falava dela com paixão.
"Ele falava com brilho nos olhos sobre o pedagogo trabalhando na área empresarial. E eu pensei: 'Eu quero trabalhar com isso'. Mas antes, eu queria entender o mundo da educação de verdade, estar na sala de aula, sentir a realidade."
E ela foi. Educação Infantil, escola particular, rede pública... Ana não só deu aulas, ela viveu a escola. Conheceu o cheiro de giz, o barulho do recreio, o cansaço do fim do dia e a alegria inexplicável de ver um aluno entender algo pela primeira vez.
Mas seu coração pulsava por mais. Ela queria alcançar não só uma turma, mas redes inteiras. Queria que Raquel visse, com orgulho tranquilo, que o sacrifício tinha valido a pena.
Voluntária por amor, profissional por missão
Ana não consegue ficar parada quando o assunto é educação. Foi chefe escotista, ajudou a fundar duas ONGs no Guarujá, duas creches que hoje acolhem dezenas de crianças. Foi coordenadora pedagógica, formando professores e multiplicando o amor que um dia recebeu.
Depois, veio o convite que mudaria tudo: a Parceiros da Educação, uma organização do terceiro setor que trabalha lado a lado com a rede pública de educação do estado de São Paulo.
Ana ficou lá por 11 anos
Onze anos lendo planilhas como quem lê histórias de vida. Onze anos cruzando dados de IDESP e IDEB como quem procura pistas de onde uma criança está pedindo socorro. Onze anos sentada ao lado de diretores, coordenadores e equipes de gestão, não para apontar culpados, e sim caminhos.
"A gente fazia leitura de dados, PDCA, monitoramento mensal. Quando chegávamos na causa raiz do problema, eu sugeria ações para melhorar o aprendizado do aluno e, em consequência, o resultado da escola. Não era só número. Era gente. Era futuro."
Educação com afeto: o princípio de Henri Wallon que Ana nunca esqueceu

Hoje, Ana é consultora no Grupo Movimenta. Apresenta índices, orienta redes, propõe projetos. Mas o que move essa trajetória continua sendo o mesmo impulso da menina que enfileirava bonecas na sala.
"Eu amo fazer leitura de dados do IDEB, essas apresentações. Mas eu acredito muito no poder dos projetos, no lúdico, no concreto. Isso torna a aula mais agradável, mais divertida, mais dinâmica, até para o professor", diz, com o mesmo brilho no olhar que um dia viu no professor da faculdade.
Para Ana, educação nunca foi só método ou indicador. É gente. Por isso, ela carrega um princípio que aprendeu com Henri Wallon e que nunca a abandonou.
"Sem afetividade não há aprendizagem. Essa frase sempre foi muito significativa para mim. Me fazia sempre lembrar o quanto o respeito e carinho por aquelas crianças ainda tão pequeninas era importante para o ensino e aprendizagem", explica.
"A empatia e respeito aos meus alunos, pais e professores foram o mais importante nesse percurso", afirma Ana, que faz dessa escolha uma prática diária.
"Educação é minha missão nesse mundo"

Então, Ana faz uma pausa. A voz fica mais baixa e mais firme, como quem está prestes a dizer a verdade mais importante da vida:
"Educação é minha grande missão nesse mundo. A educação transforma pessoas. Ela transforma o mundo. Não tem outro caminho. Não existe atalho sem a educação."
Ela aprendeu isso com Raquel. Com seus alunos e alunas. Com cada planilha que virou política pública. Com cada professor cansado que voltou a acreditar.
Se a menina de 6 anos pudesse ver a mulher que se tornou

Quando Ana imagina o encontro entre a menina que brincava de escolinha e a profissional que se tornou, ela não pensa em títulos. Pensa em coerência.
"Ela teria muito orgulho de cada desafio que me fez ser uma pessoa e profissional melhor, de cada erro e acerto que me fez refletir minhas práticas diariamente. E diria que eu nunca parei de sonhar e acreditar que a educação liberta, abre caminhos, transforma e salva vidas", reflete.
E agora, Ana Carvalho segue. De escola em escola, de rede em rede, com a mesma certeza da menina de seis anos que nunca duvidou: ela nasceu para isso.
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