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Inovação que começa na escuta: como o protagonismo coletivo transforma a escola
Escola de Campinas aposta em avanços que vão além da tecnologia, priorizando maior participação dos alunos e uma revisão das práticas pedagógicas.
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- Na Escola Comunitária de Campinas, a inovação educacional acontece pela escuta ativa e pelo protagonismo coletivo. Mais do que tecnologia, a transformação vem da participação de alunos, professores e famílias.
- A instituição aposta em participação, escuta ativa e protagonismo estudantil para repensar práticas pedagógicas.
- O modelo democrático fortalece a comunidade escolar e inspira transformações educacionais inclusivas.

Participação, escuta e corresponsabilidade. Para Marcos Marcio, diretor pedagógico da Escola Comunitária de Campinas (ECC), esses são alguns dos pilares fundamentais que sustentam uma escola verdadeiramente inovadora – muito antes da adoção de novas tecnologias. No cargo há sete anos, ele conduz uma instituição com 47 anos de história, reconhecida por integrar intencionalmente as tecnologias digitais ao processo de ensino-aprendizagem. No entanto, quando questionado sobre inovação na educação, Marcos destaca, de imediato, a estrutura democrática da escola – que equilibra a relação entre professores, alunos e famílias – como um elemento transformador e, assim, inovador.
“Essa estrutura democrática se estende a todos, incluindo os alunos. Temos assembleias estudantis em diferentes níveis, além de um conselho de representantes no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, e um grêmio estudantil. Também contamos com a assembleia de docentes, reunindo os professores. Há diversos espaços de representação: todas as turmas têm representantes, assim como as equipes de professores e funcionários administrativos. As famílias também possuem seus representantes em cada classe. Ou seja, temos uma estrutura de participação bem ramificada”, detalha Marcos, que soma 33 anos na instituição, passando por funções na orientação educacional, coordenação pedagógica e, agora, na direção.
Nos debates contemporâneos sobre transformação educacional, a ideia de inovar além da tecnologia tem ganhado força, envolvendo eixos basilares como a atenção emocional e comunitária, sustentados por uma gestão menos hierárquica. Isso inclui desde espaços de escuta ativa até modelos de escola abertos à comunidade e formas colaborativas de tomada de decisão entre docentes.
A ideia de uma “escola que se confunde com a vida”, como descreve Marcos, também orienta o trabalho de Adilson Gonçalves, professor de Geografia e coordenador do núcleo de tecnologia educacional da ECC. "A gente entende a inovação bem nesse sentido, ou seja, o quanto a escola tem esse propósito de acompanhar as mudanças da sociedade, incorporando novas tecnologias de forma crítica, avaliando benefícios e diferenciais que elas podem trazer para o trabalho realizado. Inovação é diferente de ineditismo", afirma.
Investindo em tecnologia desde a década de 1990, a Escola Comunitária de Campinas passou por uma importante mudança ao longo dos últimos anos: migração dos recursos digitais do laboratório de informática para as salas de aula, implementação de metodologias ativas – com a criação de salas específicas e não-tradicionais, que favorecem diferentes trocas – e a criação de projetos interdisciplinares com vivências práticas, os chamados “Estudos do Meio”, adaptados a cada série.
“Nosso objetivo não era que o aluno tivesse contato com o mundo digital apenas em uma aula agendada, em um momento específico, mas sim que toda a equipe de professores integrasse essas ferramentas ao dia a dia da sala de aula", explica Adilson. Ele destaca que a escola já havia adotado um modelo colaborativo de ensino, utilizando plataformas como o Google Classroom para o compartilhamento de documentos. Essa abordagem não apenas fortaleceu a interação entre alunos e professores, mas também facilitou a transição para o ensino remoto e, posteriormente, híbrido, após a pandemia da covid-19.
Capacitação contínua
Para Miruna Kayano Genoíno, especialista em Alfabetização e Mestre em Escrita e Alfabetização, a adoção de novas tecnologias na escola deve ser um processo construído coletivamente, tendo os docentes como protagonistas desde o início.
“Antecipação e construção junto à equipe de professores e professoras são essenciais, assim como o envolvimento de pesquisadores que estudam a educação. Para mim, a maior inovação educacional é garantir que docentes, que vivem o cotidiano escolar, participem ativamente da implementação de novas metodologias. Essas metodologias devem atender às reais necessidades da escola, e não apenas às expectativas de agentes externos", pontua a pedagoga, mestre pela Universidade de La Plata, na Argentina, cuja pesquisa abordou a revisão textual em situações interativas, com foco no uso de ferramentas tecnológicas.
Investindo fortemente na capacitação de seu corpo docente, a Escola Comunitária de Campinas tem oferecido formação sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) a seus professores. Esse processo teve início com um grupo de estudos composto por diretores, coordenadores de segmentos e áreas do conhecimento, que se dedica a explorar o tema por meio de leituras, trocas de experiências e pesquisas, além da participação de um professor convidado especialista em IA. O objetivo é preparar os docentes para lidar com a presença crescente das inteligências artificiais generativas no cotidiano dos alunos e integrar essas ferramentas ao processo de ensino-aprendizagem de forma crítica e reflexiva.
Após garantir que todos os professores tenham uma base sólida sobre o assunto, a escola avança para a parte prática, com oficinas e espaços para esclarecimento de dúvidas. No entanto, Marcos Marcio destaca a importância da cautela na adoção de novas tendências, especialmente tecnológicas. "Acho que o primeiro cuidado que devemos ter ao falar de inovação é evitar os modismos. A educação é constantemente bombardeada por tendências que surgem em outros setores, especialmente na tecnologia, e muitas vezes essas soluções são projetadas para as escolas sem uma análise crítica. Antes de incorporar qualquer inovação, precisamos entender quais benefícios e diferenciais ela realmente traz para o nosso trabalho. Um recurso não pode apenas reproduzir o que já existe — ele precisa expandir, ampliar e agregar valor ao que fazemos”, diz.
Repensando o espaço
No Brasil, a implementação de práticas inovadoras enfrenta desafios como a desigualdade socioeconômica, infraestrutura limitada e resistência a mudanças. No entanto, essas oportunidades surgem justamente com investimentos em tecnologia educacional, formação continuada de professores e políticas públicas que incentivem a inovação educacional. A adoção de metodologias ativas, centradas no aluno, e o uso estratégico de dados podem personalizar o aprendizado e reduzir desequilíbrios, criando um ambiente educacional mais inclusivo e eficaz.
Os últimos relatórios do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) indicam que países como Singapura, Hong Kong, Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Estônia têm revolucionado seus sistemas educacionais com práticas inovadoras, incluindo a reformulação de espaços, como é o caso da Escola Comunitária de Campinas.
Em contextos socioeconômicos semelhantes ao do Brasil, países da América Latina têm implementado iniciativas de destaque, como o programa uruguaio Ceibal "1 a 1", que fornece um computador por aluno nas escolas públicas, promovendo a inclusão digital e melhorando o aprendizado, ou o projeto colombiano de educação rural, anterior à pandemia, que integra tecnologia e metodologias ativas, melhorando a qualidade do ensino em áreas remotas. A iniciativa "Rural + Conectado" permitiu que agricultores e escolas rurais tivessem acesso à internet, promovendo a inclusão digital e o desenvolvimento de técnicas de agricultura de precisão.
São exemplos pontuais que, embora ainda não representem a magnitude necessária para uma transformação completa e equitativa, indicam caminhos possíveis. Na visão de Miruna Kayano, as escolas rurais, por sua natureza multietária, possuem uma organização pedagógica não-tradicional, o que pode abrir novas perspectivas para repensar a pedagogia de forma inovadora.
“Quando vamos pensar que uma escola rural é inovadora? Quando reunimos crianças de 4 a 11 anos em uma mesma turma, eu preciso inovar no modo de pensar essa pedagogia. Há muito material rico sendo publicado sobre isso. Na Argentina, esse modelo já avançou bastante, e esperamos que no Brasil ele também ganhe força”, diz.
Especialistas concordam que a verdadeira inovação educacional não está apenas na adoção de novos materiais ou aplicativos, mas na reformulação das propostas pedagógicas, reimaginando o aprendizado e a estrutura escolar. O diferencial está em construir uma escola que valorize o potencial dos professores, tornando-os agentes ativos e criativos no processo educacional. Para que seja efetiva, a inovação precisa estar acompanhada de mudanças pedagógicas, repensando métodos de alfabetização, rotina escolar e até mesmo a forma de agrupar alunos.
“Qual é a escola que a gente deseja para o tempo de hoje? A maior inovação de uma escola é trazer uma estrutura diferente para o papel de professores e professoras, profissionais criativos, ativos, que possuem um saber pedagógico que precisa ser colocado em jogo, e não estão ali para executar ideias que são trazidas por outros. Acho que a inovação pedagógica, se ela não for construída com quem está na sala aula, vai ser sempre uma coisa de fora para dentro. Ou seja, já não vai ser uma inovação”, afirma Miruna.
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