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Gelson Weschenfelder, o Filósofo dos Quadrinhos: quando super-heróis viram ferramenta de educação, ética e resiliência
Doutor em Educação e graduado em Filosofia, Weschenfelder usa HQs e cultura pop para mediar discussões sobre vulnerabilidade social, escolhas morais e desenvolvimento socioemocional em projetos com estudantes
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- Gelson Weschenfelder usa HQs e cultura pop para trabalhar ética e resiliência com estudantes.
- Super-heróis e super-heroínas funcionam como espelho de vulnerabilidades reais e gatilho para denúncias e apoio.
- Projetos em escolas combinam criação de quadrinhos, rede de proteção e formação de professores.

Quem é Gelson Weschenfelder (Filósofo dos Quadrinhos)
Gelson Vanderlei Weschenfelder é doutor em Educação e graduado em Filosofia. Nas redes sociais, ficou conhecido como “Filósofo dos Quadrinhos” por traduzir temas filosóficos, principalmente ética, virtudes e responsabilidade, a partir de histórias em quadrinhos e personagens da cultura pop. Na prática, sua atuação une pesquisa acadêmica e aplicação pedagógica: ele não trata HQs apenas como entretenimento, mas como linguagem de ensino e mediação para conversas difíceis no ambiente escolar.
Quadrinhos na educação: por que super-heróis ajudam a ensinar ética

A lógica do trabalho de Weschenfelder parte de um ponto direto: personagens populares já fazem parte do repertório de crianças e adolescentes. Em vez de competir com esse repertório, ele o transforma em ponto de partida para perguntas éticas e discussões sobre vida real. Em suas palavras, a aula e as oficinas costumam começar com provocações e questionamentos ligados à vivência dos estudantes. Depois, entram cenas de séries, filmes, tirinhas, personagens e outras referências de cultura pop para introduzir a problemática e sustentar o debate.
Super-heróis e resiliência: o conceito de “pré-capa”
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Weschenfelder explica que, a partir do mapeamento feito no doutorado, a grande maioria dos super-heróis e super-heroínas passa por situações de vulnerabilidade social, como violência física, violência doméstica, violência sexual, bullying, racismo e outros preconceitos. Ele chama de “pré-capa” o período anterior ao personagem se tornar herói, quando ainda está exposto e lidando com perdas e riscos.
A ideia de “tutores de resiliência” aparece justamente aí. Ao identificar que esses personagens atravessam vulnerabilidades e, em algum momento, conseguem se reorganizar e seguir adiante, o estudante encontra uma referência narrativa para pensar a própria história, sem precisar se expor de forma direta no início.
Como funciona a oficina de quadrinhos na escola (intervenção psicopedagógica)
O método relatado por Weschenfelder combina identificação, criação e mediação. Em linhas gerais, o processo segue uma sequência como esta:
Apresentação de personagens e histórias que dialogam com questões reais (bullying, preconceito, violência, pertencimento etc.).
Conversa mediada: o que o personagem vive, quais escolhas ele faz, quais redes de apoio aparecem, o que seria possível fazer na vida real.
Criação de roteiro e produção de quadrinhos: os estudantes criam histórias em que eles mesmos viram personagens, com um alter ego, e colocam no papel situações de vulnerabilidade.
Regra pedagógica central: enfrentar e resolver os conflitos sem usar superpoderes. O foco é construir possibilidades reais, incluindo pedir ajuda e acionar redes de suporte.
Produção coletiva: frequentemente, o trabalho é organizado como uma criação em grupo, com divisão de tarefas entre roteiro, desenho e cor, favorecendo pertencimento e cooperação.
Segundo ele, colocar a experiência no papel pode funcionar como catarse e reorganização: o aluno revê situações, nomeia o que viveu e experimenta posições mais ativas diante do problema.
Casos relatados: quando a narrativa vira denúncia, apoio e mudança

Entre os exemplos trazidos, ele descreve uma adolescente que se identificou com personagens que passaram por violência sexual e, durante o processo de intervenção, conseguiu perceber que vivia uma situação de risco que havia normalizado. A partir da construção da personagem e do avanço do projeto, ela denunciou a violência e recebeu amparo institucional, com encaminhamentos formais.
Ele relata também o caso de um menino negro que vivia um ciclo de violência em casa e enfrentava discriminação racial e bullying na escola. O aluno gostava de desenhar e entrou no projeto por causa disso. Com o tempo, passou a se expressar mais, participou do processo coletivo e mudou sua posição social no grupo: deixou de estar isolado e virou referência por desenhar bem.
Ao final, segundo Weschenfelder, o aluno se emocionou porque o projeto representava, para ele, um senso de família e pertencimento que não encontrava em casa.
Cuidado ético e proteção: por que o método exige rede de apoio

Um ponto repetido por Weschenfelder é que esse tipo de trabalho não pode acontecer sem suporte. Ele descreve a criação de um ambiente de amparo, com presença de profissionais como psicóloga e assistente social, além do suporte da escola, para acolher, escutar e encaminhar situações que apareçam durante as atividades.
Isso dá ao projeto uma dimensão ética essencial: não se trata apenas de produzir histórias, mas de garantir que, se uma vulnerabilidade séria vier à tona, exista proteção real.
Cultura pop como porta de entrada para conversas difíceis

Ao misturar quadrinhos, filmes, séries e música na didática, Weschenfelder aposta em uma comunicação que os alunos e alunas reconhecem. Essa estratégia, segundo ele, ajuda a escola a enxergar o que às vezes não consegue perceber: o estudante pode não dizer diretamente o que vive, mas consegue narrar por meio de personagem.
A narrativa funciona como mediação, reduz a barreira da vergonha e dá linguagem para o que estava sem nome.
Onde acompanhar o trabalho de Gelson Weschenfelder
Instagram: https://www.instagram.com/filosofodosquadrinhos/
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCfVeT1_1vjVwmGC2evoBJ-g
PUCRS (matéria): https://portal.pucrs.br/noticias/pesquisa/historias-em-quadrinhos/
IHU On-Line (entrevista): https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7724-quadrinhos-e-uma-filosofia-vivenciada-na-pratica
Página de autor: https://uiclap.bio/filosofodosquadrinhos
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