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Formação continuada de professores: desafios persistem em meio ao crescimento
No Brasil, formação de professores ainda depende mais da insistência individual do que de políticas públicas, alertam pesquisadoras.
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- Apenas 41,7% dos docentes participaram de formação em 2023, conforme dados do Censo Escolar.
- Os dados indicam crescimento de professores com especialização, mas especialistas entendem que falta aprofundamento nas formações.
- Políticas públicas falham em atingir metas do PNE.
- Formações EaD dominam e 90% das licenciaturas são na rede privada.
- Desigualdades regionais limitam a capacitação de professores.
- Melhorar a formação continuada de professores exige reformas estruturais e investimento real.
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A formação continuada dos professores da educação básica no Brasil enfrenta desafios estruturais que, além de impactarem diretamente a qualidade do ensino, empurram a capacitação para um “caminho mais curto e menos custoso”. Dados do Censo Escolar de 2023 revelam que menos da metade (41,7%) dos docentes no país participa regularmente de programas de formação.
Embora tenha havido um crescimento de professores com mais qualificação nos últimos dez anos – em 2013, o percentual representava 30,6% –, essa realidade reflete disparidades estruturais, regionais e simbólicas.
“Eu vejo a qualificação docente no Brasil encurralada por um sistema que empurra os professores para o caminho mais curto e menos custoso. O crescimento das especializações, muitas delas oferecidas a preços acessíveis e em formatos acelerados, reflete menos um desejo por aprofundamento acadêmico e mais uma necessidade prática: obter um título sem comprometer tempo e renda”, afirma Talula Montiel, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em formação de leitores e de professores.
Em 2024, o Brasil deveria ter 100% dos professores da Educação Básica participando de cursos de formação continuada e 50% com formação em nível de pós-graduação – é o que definia a meta 16 do Plano Nacional de Educação (PNE - Lei nº 13.005/2014), que determinou diretrizes, objetivos e estratégias para a política educacional no período de 2014 ao ano passado. Quando o assunto é capacitação docente, a educação brasileira parece revelar um cenário em que diversas políticas públicas falham em atingir suas próprias metas.
A Base Nacional Comum para a Formação de Professores (BNC-Formação – Resolução CNE/CP nº 2/2019) destaca a formação continuada como um direito dos docentes, enquanto a Política Nacional de Formação de Professores (Decreto nº 9.057/2017) incentiva parcerias entre universidades e redes de ensino.
Iniciativas, como o Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) e o Programa de Formação Continuada para Professores da Educação Básica (Profic), oferecem cursos específicos para docentes. O Novo FUNDEB (Emenda Constitucional 108/2020) também destina recursos para capacitação, e iniciativas estaduais e municipais, como o Programa Escola do Professor, complementa esses esforços.
Para Andrea Harada, doutora e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), contudo, essas políticas educacionais não apontam um caminho efetivo para a melhoria do quadro educacional brasileiro. “Muito pelo contrário: os cursos EaD foram estimulados com medidas que flexibilizam a criação de polos. Nesses cursos, há pouco ou nenhum contato entre professores e alunos, assim como entre alunos e alunos. A maioria utiliza material pré-fabricado, convertendo aulas – com diálogo, questionamento e interação – em exibição de vídeos curtos. Isso é dramático e escandaloso quando se pensa em política educacional”, avalia.
Segundo dados do último Censo da Educação Superior, em 2023, 67,1% das matrículas nas licenciaturas estavam em instituições de ensino privadas, sendo 90% em cursos à distância.
Harada pesquisa as relações entre a mercantilização da educação e a precarização do trabalho docente. Em sua análise, as condições de trabalho, o salário dos e das docentes, a instabilidade vivenciada por professores no setor privado – em meio a demissões frequentes – e no setor público – em um panorama de contratações precárias – são fatores impeditivos para o aprofundamento da formação. “Tudo isso acaba por gerar um imediatismo fundado na necessidade de sobrevivência, afastando a noção de futuro e permanência. Nesse cenário, se inviabiliza a busca por cursos de mestrado e doutorado que demandam jornadas menores de trabalho e maior tempo de dedicação à pesquisa”, afirma.
Os resultados do Censo Escolar revelam que, em 2023, a porcentagem de professores com especialização aumentou na última década, passando de 28,4% para 43,7%. Docentes que trilharam o caminho do doutoramento, no entanto, representam 1%.
Desigualdades no acesso à formação de professores
““A grande questão não é convencer os professores de que vale a pena estudar – porque muitos já sabem disso e, apesar de tudo, seguem estudando –, mas criar condições para que a formação seja parte do cotidiano escolar.” (Talula Montiel)
”
A rede privada de ensino geralmente é associada a mais oportunidades de capacitação para seus profissionais, com a possibilidade de suporte financeiro e infraestrutura mais adequada. Refletindo uma questão que é estrutural de acesso à formação, docentes da rede pública, muitas vezes, dependem de iniciativas governamentais esporádicas e enfrentam dificuldades, como falta de tempo e remuneração insuficiente, para investir em cursos e especializações.
“Certamente, algumas instituições se destacam na qualificação docente. No setor privado, escolas, como o SESI-RS, onde hoje eu atuo como orientadora pedagógica, demonstram um compromisso significativo com a formação docente, valorizando não apenas a capacitação técnica, mas também a construção de um olhar reflexivo e crítico sobre a prática pedagógica”, ressalta Talula.
Na sua avaliação, universidades, secretarias de educação e empresas privadas têm um papel crucial e podem contribuir substancialmente com essa responsabilidade, que deveria ir além da mera transmissão de conhecimentos teóricos e metodológicos.
“Um olhar mais sensível e contemporâneo, que valorize o contexto social e cultural do professor, poderia transformar significativamente a qualidade da educação. Isso exige gestores que não apenas dominem a administração e as políticas educacionais, mas que também compreendam a realidade do docente e do estudante nas suas múltiplas dimensões. As escolas privadas, quando investem na formação de seus professores com programas consistentes e alinhados às demandas contemporâneas, criam ambientes de aprendizagem mais inovadores e eficazes. No entanto, é essencial que esse investimento não se restrinja a uma lógica mercadológica, mas que dialogue com a humanização do ensino, com a criatividade e com a criticidade que a educação exige.”
Para Andrea, que hoje preside o Sindicato dos Professores de Guarulhos (Sinpro Guarulhos), é fundamental extrapolar certa tendência que opõe genericamente escolas públicas e privadas quando o assunto é a vida dos professores. “As escolas privadas são diversas e atendem diferentes camadas sociais. Muitas carecem de estrutura mínima e têm precárias condições de trabalho e de salário. O que é possível observar é que, nas escolas privadas de elite, o critério de contratação já passa por um funil de boa formação. Além disso, com melhores salários, os docentes conseguem mais tempo para se dedicar a outras atividades de formação, em melhores condições que professores de escolas precárias, que podem ser tanto públicas quanto privadas”, diz.
Impactos na aprendizagem dos estudantes
““Não dá para cobrar de professores a formação continuada, sem que ele tenha outra perspectiva de carreira. Por isso considero que não é possível pensar em reformas que não sejam estruturais e combinadas com um projeto de desenvolvimento da educação em todos os níveis e, também, com o projeto de desenvolvimento do país.” (Andrea Harada)
”
De acordo com o último relatório do PNE, o déficit de capacitação docente está diretamente ligado a índices mais baixos de aprendizado, especialmente em disciplinas como Matemática e Português. Atuando como formadora de professores, Talula viu na relação de docentes com a leitura uma chave para o desenvolvimento de suas pesquisas a respeito da leitura das crianças na escola.
“O discurso escolar insiste na importância de formar leitores, mas raramente se debruça sobre a leitura do próprio professor. Como esperar que as crianças desenvolvam um vínculo autêntico com os livros, se os adultos que as acompanham nessa travessia não vivem essa experiência de forma plena? Essa inquietação me levou a estudar a formação do professor leitor e a perceber como a ausência de um repertório literário robusto empobrece não apenas as práticas pedagógicas, mas também a própria vivência do docente. Quando um professor lê, ele não apenas adquire conhecimento, mas expande sua sensibilidade, sua escuta, sua capacidade de perceber e ressignificar a experiência da docência”, afirma.
Como pedagoga e leitora, “antes de qualquer coisa”, Talula defende que as bibliotecas escolares contemplem também a leitura do professor e que a formação docente inclua, de maneira estruturada e intencional, a literatura como um direito e um pilar da prática pedagógica. “Não podemos formar leitores sem formar professores leitores – essa é uma contradição que precisa ser urgentemente enfrentada.”
Seguir aprendendo
Tecnologia, personalização do ensino e novas metodologias são apontadas como tendências com impacto de transformação direto na sala de aula. Gamificação, ensino híbrido, inteligência artificial na educação e ensino socioemocional são pautas já presentes no dia a dia dos docentes.
Na visão de Talula Montiel, entretanto, nada disso terá real valor se não houver investimento na figura do professor, em sua formação, no seu bem-estar e no seu reconhecimento como sujeito de pensamento e transformação. “A docência do futuro dependerá do quanto conseguiremos romper com a lógica de abandono e construir um cenário onde o professor não apenas resista, mas queira permanecer. Não por sacrifício, mas por desejo. E esse desejo só se sustenta quando o professor encontra espaços para seguir aprendendo, para ser escutado, para sentir que sua travessia importa. E todos nós sabemos que ela importa.”
Jogo rápido com as professoras Andrea Harada e Talula Montiel

Em entrevista, docentes analisam os desafios da formação continuada no Brasil e refletem sobre o impacto da qualificação na prática docente e na aprendizagem dos alunos.
Professoras, quando falamos em formação continuada para docentes, quais seriam as diretrizes e especificidades? Qual é a importância da formação continuada para os professores da educação básica?
Talula Montiel: A formação continuada é o que nutre o repertório do professor, ampliando o sentido ao ensinar e ao aprender. Não se trata de uma exigência burocrática ou de um acúmulo de certificados, mas de um processo contínuo de reflexão, troca e reinvenção da prática docente. Ensinar é um ofício artesanal, e como todo artesão, o professor precisa refinar suas ferramentas, expandir seu olhar, cultivar novas linguagens. Bell Hooks nos lembra que ensinar é sempre um ato político, e a formação continuada é uma maneira de garantir que esse ato seja consciente, comprometido e potente. Porque educar, no fim das contas, é um ofício que exige coragem para aprender sempre.
Andrea Harada: A formação continuada corresponde a um processo permanente de atualização e ampliação do repertório científico e pedagógico, considerando que o objeto de trabalho dos professores é o conhecimento. Essa deveria ser a diretriz para que professoras e professores estivessem em sintonia com o que se produz cientificamente em sua área de atuação, além de permitir o desenvolvimento de metodologias adequadas para a abordagem desse conhecimento em sala de aula. No entanto, o problema é anterior e, para mim, reside principalmente na formação inicial dos professores, ou seja, nos cursos de graduação.
Por outro lado, e com a mesma importância, deveríamos ter uma carreira docente que possibilitasse a realização profissional, com salários dignos e condições de trabalho adequadas. Bolsas e incentivos — como a recente iniciativa do Pé-de-Meia para estudantes de licenciatura ou o programa Mais Professores, do Governo Federal — não resolvem o problema e criam uma impressão ilusória de valorização.
Como plataformas digitais e outras tecnologias podem ajudar a reduzir as desigualdades no acesso à formação docente?
Andrea Harada: A tecnologia não é um mal em si mesma, claro. Aliás, ela resulta do conhecimento humano acumulado e é, portanto, produto desse conhecimento. Mas a apropriação da tecnologia pelos interesses do capital tende a uma pasteurização da formação. É claro que muitos docentes podem se apropriar dos conteúdos disponíveis em plataformas digitais para adquirir e aprofundar conhecimentos, mas isso não pode ser o meio predominante, sob pena de retirarmos da educação aspectos que lhe são caros, como o convívio e a troca de ideias na construção do conhecimento.
Por fim, o que podemos esperar do futuro da profissão docente no Brasil?
Talula Montiel: O futuro da docência carrega desafios profundos, mas também possibilidades de reinvenção e fortalecimento. Os dados e prognósticos podem ser desanimadores: a falta de interesse dos jovens pela profissão, o descrédito social na educação, a precarização das condições de trabalho e a evasão docente. Mas esses números, por si só, não capturam a inteireza da experiência de ser professor, nem o que ainda pode ser construído.
A docência não é missão, não é dom. Educar exige estudo, reflexão, diálogo e trocas. É um trabalho que precisa ser reconhecido em toda a sua complexidade. O problema é que, muitas vezes, se espera que o professor se sustente apenas pelo amor ao ensino, enquanto suas condições materiais e intelectuais são deixadas de lado. É preciso inverter essa lógica: não basta falarmos sobre a importância da educação para as crianças; precisamos falar, com a mesma intensidade, sobre a importância do estudo, da formação e do reconhecimento para aqueles que ensinam.
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