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Escolas precisam aprender a lidar com traumas de estudantes após eventos climáticos extremos
Traumas pós-enchentes: Alunos impactados por tragédias climáticas em 2024 no Rio Grande do Sul (RS) demoram a retomar o foco na sala de aula por escolas resilientes.
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- Trauma climático nas escolas: Eventos extremos (como as enchentes no RS em 2024) causam traumas em alunos, afetando foco e frequência.
- Apoio e resiliência: Escolas precisam de apoio psicológico, flexibilização pedagógica e se tornar "escolas resilientes".
- Educação Ambiental urgente: Necessidade de preparar a educação para lidar com a crise climática, focando em proteção e conscientização dos jovens.

Em 2024, O planeta atingiu um aumento de 1,5 ºC na temperatura média dos níveis anteriores à Revolução Industrial, mais cedo do que cientistas previam, o que tem causado um aumento nos eventos climáticos extremos. No ano passado, pelo menos 242 milhões de estudantes no mundo sofreram impactos por ondas de calor, ciclones tropicais, tempestades, inundações e secas, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
O Brasil está cada vez mais presente nessas estatísticas. Em Manaus, no Amazonas, a seca severa dos últimos anos fez a prefeitura encerrar o ano letivo de escolas ribeirinhas semanas antes. As enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul atingiram quase 400 mil estudantes e mais de 1.000 escolas. A crise climática é uma realidade com a qual o sistema educacional brasileiro precisa aprender a lidar.
Relatos de professores e alunos
A escola da professora Débora Filipa, professora do quinto ano, em Porto Alegre, foi atingida pela primeira vez em 2024. Ela precisou receber uma turma extra na sala. Não havia espaço e as atividades acabaram sendo feitas de casa, num processo que lembrou a pandemia. O trauma dessa vez, no entanto, é outro: “Alguns alunos sentem medo até hoje da chuva. Quando ameaça cair água, muitos pais já vêm buscar os filhos”, afirma.
O diretor Ivo Saldanha, professor de História da EMEF Frederico Dihl, de Alvorada, Rio Grande do Sul, já avisa os professores recém-chegados: pode ser que nos meses de maio e junho ocorra enchentes na região e que alguns alunos não apareçam. É assim há mais de década. Em 2024, houve o extremo de mais de um mês sem aulas.
“Não é que as aulas voltaram e os alunos voltaram. Foi um retorno gradual. Sem contar as crianças que moravam em áreas ainda afetadas ou mudaram de bairro ou cidade. Os professores têm que ser mais condescendentes no encerramento do semestre, mas isso tem prejuízo pedagógico a longo prazo”, diz Ivo. Ser mais condescendente, explica, significa flexibilizar prazos e adaptar critérios de avaliação para não prejudicar alunos em situação de vulnerabilidade. Ele conta que nesses episódios de eventos extremos, professores adoecem física e mentalmente mais do que o normal. Para minimizar esses impactos, as escolas devem adotar medidas como o fortalecimento do apoio psicológico e a flexibilização da carga de trabalho.
Deivid Henrique Pereira, também de Alvorada, está no terceiro ano de pedagogia, e sentiu isso na pele. “Eu percebia os impactos da enchente em mim e nos alunos. Era desesperador, comovente, indignante não saber quando a água ia descer, se íamos sobreviver. É um trauma que vai ficar para sempre”. Ele perdeu uma série de materiais dos seus primeiros estágios que gostaria de ter guardado para estudar os aprendizados.
O relato de Deivid coincide com o foco de trabalho da Pedagogia da Emergência, projeto que atende crianças feridas emocionalmente para que recuperem a confiança “nelas mesmas, no outro e no mundo”. A iniciativa atuou no Rio Grande do Sul durante as enchentes, apesar das dificuldades logísticas de chegar às áreas atingidas.
“O que aprendemos neste trabalho é que as questões climáticas vão ser mais comuns. Temos que preparar as escolas e os equipamentos educacionais para receberem famílias e alunos desabrigados e desalojados de forma segura, que não amplie os traumas”, diz Reinaldo Nascimento, um dos voluntários do Pedagogia da Emergência.
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Eles explicam aos pais e professores os impactos pós-traumáticos deste tipo de evento nas crianças. “Os educadores precisam entender que os estudantes vão ter mais dificuldade no aprendizado. A cabeça da criança vai estar na casa que não tem mais, no cachorro que morreu, e não na sala de aula”.
Mudanças climáticas e resiliência escolar
A psicóloga ambiental Camila Bolzan de Campos, coordenadora do Laboratório de Intervenção e Pesquisa Pessoa-Ambiente, atuou com alunos após as enchentes no Rio Grande do Sul. Em uma das atividades de desenho, percebeu que pedidos de socorro eram elementos frequentes. Essa ansiedade climática, ela diz, continua presente até hoje. O restabelecimento da comunidade escolar e da interação dos alunos com ambientes lúdicos, como o pátio escolar, é fundamental na recuperação.
Leis e programas nacionais que versam sobre o tema até existem. A Lei nº 9.795/1999, por exemplo, há mais de 25 anos dispõe sobre a Educação Ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental. O artigo 2º define que “a educação ambiental deve estar presente em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal”. Mas a construção de políticas climáticas ainda é uma realidade bem distante.
Professores estaduais como Felipe Santos, de Guaíba, no Rio Grande do Sul, sentem-se desamparados pelo governo. “Recebemos uma ajuda de custo de R$ 5,1 mil do governo estadual e só. É pouco para pessoas como eu, que perderam quase tudo. Notebooks [essenciais para planejar aulas atualmente] e licenças prêmio foram negados. Precisei de vaquinhas de amigos. Até hoje estou refazendo meus materiais”, relata.
Depois das tragédias recentes que o estado enfrentou, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul passou a focar no conceito de escolas resilientes, com o fortalecimento das temáticas relacionadas à educação ambiental e justiça climática.
“Uma escola resiliente é capaz de resistir e absorver impactos de eventos adversos; assegurar a qualidade e a equidade do ensino; acolher e garantir o bem-estar da comunidade escolar; adaptar-se ao contexto socioambiental de risco de desastres; recuperar rapidamente a trajetória de aprendizagem dos estudantes e o ambiente escolar”, diz a pasta em nota.
O estado tem ainda investido em cursos técnicos nessa área, como o de Meio Ambiente, o de Florestas e o de Sistemas de Energia Renovável, que busca formar profissionais aptos a atuar na gestão e conservação ambiental, “competências essenciais diante dos desafios ambientais que o estado vem enfrentando, como as enchentes e outros eventos climáticos extremos”, afirma a Secretaria.
Segundo o “Tracking Sintonia com a Sociedade”, de 2023, feito pela Globo, 7 em cada 10 jovens brasileiros de 18 a 24 anos compreendem a gravidade das mudanças climáticas, afinal, eles serão os mais atingidos. Segundo o cientista Carlos Nobre, referência no estudo do clima, uma criança nascida nos anos 2020 poderá enfrentar até 50 ondas de calor durante a vida.
“Promover a educação ambiental é essencial. As crianças e adolescentes precisam ser apoiados para se protegerem das ameaças do clima mais extremo e exercerem seu direito de serem ouvidas sobre políticas e ações que buscam remediar danos”, escreveu Carlos Nobre em sua coluna no UOL em outubro de 2024.
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