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Educação como propósito: a jornada de Zé Luís, da periferia à universidade
Conheça a história do professor Zé Luís, da UFPE, que superou a pobreza e a síndrome de Tourette e hoje transforma vidas com projetos sociais em Pernambuco
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- Professor da UFPE supera pobreza e síndrome de Tourette.
- Cria o Pirráias da Periferia para 300 crianças com esporte e reforço.
- Pedalada Recife-SP mobiliza doações de quase 200 pares de tênis e chuteiras.
- Cursinho Gradação aprova mais de 100 jovens da escola pública em universidades.
- Defesa da inclusão, da educação pública e da formação de novos professores.

Da periferia ao ensino superior: uma história de superação pela educação
A trajetória de José Luís Simões, o professor Zé Luís, é um exemplo vivo de como a educação pública pode transformar destinos. Nascido em uma comunidade humilde em São José dos Campos (SP) e órfão de pai aos cinco anos, ele agarrou a oportunidade de estudar e hoje dedica a vida a criar as mesmas chances para os outros.
José Luís Simões saiu da Vila Rossi carregando caixas de laranja antes mesmo de aprender a soletrar a palavra universidade. Filho mais velho e sem a presença do pai, José teve seu primeiro emprego na feira livre, seguido pelo ofício de office-boy, pelo balcão do restaurante e pelo quartel. Ainda assim, nunca largou os cadernos da escola pública. O passo seguinte foi a licenciatura em Educação Física custeada com as aulas noturnas de natação e futebol que dava.
Na graduação descobriu a pergunta que mudaria sua vida: por que a escola falha justamente com quem mais precisa dela? Tentou diversas seleções de pós-graduação, até que uma porta se abriu. No mestrado investigou a violência escolar, no doutorado escreveu a tese Escola para as elites, cadeia para os vadios, estudo que virou um livro e ecoa em salas de aula Brasil afora. Entre artigos e capítulos, publicou doze obras em parceria com pesquisadores e três títulos solo. Além da tese em formato de livro, assinou Currículo, corpo e periferia, reflexão sobre educação e desigualdade, e o romance Ser feliz – a saga de um brasileiro que viveu na periferia, onde mistura lembrança e ficção para mostrar que esperança também nasce em chão batido.

Pedalada solidária
Pausa para selfie durante travessia de bicicleta que arrecadou doações de tênis e chuteiras para o Pirráias da Periferia. Foto Divulgação.

Treino com acompanhamento
Disputa de bola em campo de terra durante atividade do Pirráias da Periferia. Foto Divulgação.

Parceria pela educação
Aperto de mãos entre Zé Luís e a Senadora Tereza Leitão durante agenda por projetos educacionais. Foto Divulgação.

Voz ativa na universidade
Professor Zé Luís durante evento acadêmico no auditório da Universidade Federal de Pernambuco. Foto Divulgação.
Projetos sociais que mudam realidades: Pirráias da Periferia e Gradação
Quando conquistou a vaga de professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), guardou a pouca mobília em duas malas e rumou ao Recife. Ali percebeu que a pesquisa precisava pisar no mesmo barro da sua infância. Com essa ideia, nasceu o Pirráias da Periferia. Em seis bairros populares, as quadras ganham vida com treinos de futebol, aulas de recreação, lanche na saída e reforço escolar obrigatório para mais de 300 crianças. Resultado: melhora no boletim, queda na evasão escolar e autoestima que balança as redes bem mais alto que qualquer gol. Para equipar os jogadores mirins, o professor atravessou o país de bicicleta. Foram 21 dias de sol, chuva, asfalto e solidão entre Recife e São Paulo, cada quilômetro narrado nas redes e convertido em doações. Voltou com quase 200 pares de tênis e chuteiras nas sacolas, e a festa da entrega dos acessórios transformou o campinho de terra numa arena de sonhos recém-calçados.
Assim que alguns pirráias terminaram o Ensino Médio, surgiu outro desafio: o vestibular. José Luís reuniu colegas da UFPE e criou o Gradação, um cursinho gratuito que ocupa três salas do campus aos sábados. Com material didático doado, simulados mensais, orientação vocacional e, sobretudo, conversa olho no olho. Em poucos anos, o cursinho levou mais de 100 jovens de escola pública para universidades federais e estaduais, muitos deles são os primeiros universitários de suas famílias.
Inclusão, acessibilidade e o poder de inspirar novos professores
Portador da síndrome de Tourette, Zé Luís carrega tiques que já foram motivo de chacota na infância. Transformou essa dor em militância, aprendeu Libras e defende que toda diferença é ponto de partida para inventar pontes. Hoje exige de futuros docentes um olhar que encontre potencial nas diferenças antes de colar rótulos.
Quando lhe perguntam qual conquista mais o comove, José Luís não fala dos 15 livros publicados nem das defesas de tese que orientou. Ele conta de uma tarde chuvosa em que o telefone tocou. Do outro lado, Joana, ex-aluna do Gradação, soluçava de alegria: tinha acabado de ser aprovada em Medicina. O professor caminhou até a janela do corredor, viu o céu escuro sobre o Capibaribe e as lágrimas vieram sem pedir licença. Naquele instante enxergou, com nitidez de fotografia, o caminho inteiro: das laranjas vendidas na feira ao jaleco branco da estudante. Percebeu que cada pedalada, cada página escrita, cada gol gritado no Pirráias cabia dentro daquele obrigada, professor. E entendeu, uma outra vez, que o futuro pode ser feito à mão quando alguém insiste em plantar oportunidade no lugar onde, um dia, faltou esperança.
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