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Diálogo é essencial para que a lei que proíbe celulares nas escolas funcione
Pais e escolas precisam assumir papéis complementares na alfabetização digital das crianças
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- Após a pandemia, houve um crescimento da preocupação com o uso excessivo de celulares.
- A lei 15.100/2025 restringe o uso de celulares nas escolas, visando melhorar o bem-estar, desenvolvimento e socialização dos estudantes.
- Escolas relatam benefícios: maior interação entre alunos e interesse nos estudos.
- A lei não abomina o uso de telas. Defende o uso consciente da tecnologia, com espaço para fins pedagógicos.
- A escola e os responsáveis têm papel fundamental na alfabetização digital dos jovens.

Dois fenômenos recentes, um editorial e o outro no streaming, retratam os dilemas de um mundo em que crianças e adolescentes usam celulares e redes sociais em excesso.
O primeiro, o livro “A Geração Ansiosa: Como a Infância Hiperconectada Está Causando uma Epidemia de Transtornos Mentais”, do psicólogo social americano Jonathan Haidt, causou um frisson pelo mundo em 2024, tornando-se best-seller nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países. A obra constata que os níveis de desequilíbrio na saúde mental dos jovens são alarmantes. Esse crescimento coincide com o início do uso de smartphones e redes sociais, a partir dos anos 2010.
O segundo é a série “Adolescência”, da Netflix, de 2025, em que um adolescente de 13 anos mata uma colega da escola após frequentar fóruns “incels”, ambientes masculinos de conteúdos extremos e misóginos. Seus pais, em choque, questionam-se onde erraram. Uma frase do pai é reflexo de nossos tempos. “Ele estava seguro no quarto”. Não estava.
A pandemia da covid-19 agravou essa situação. Os jovens, que já usavam telas em excesso, passaram a ficar o dia inteiro nelas, seja nas aulas por Zoom ou Meet, seja no TikTok, aplicativo que bombou nos primeiros meses do distanciamento social. No retorno às aulas presenciais, o celular era um vício ainda maior. A dopamina de rolar o feed era onipresente.
Países como França e Suécia foram os primeiros a criarem leis para controlar o uso de celular no ambiente escolar. Estados como São Paulo também começaram a legislar sobre o tema. E então, no início de 2025, o presidente Lula sancionou a lei nº 15.100/2025, aprovada pelo Congresso no fim de 2024, que restringe o uso dos aparelhos nas escolas.
Os impactos da lei: dentro e fora da escola
O deputado Diego Garcia (Republicanos-PR), relator da lei na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, recebeu com entusiasmo a fala de Jonathan Haidt, que esteve no Brasil em maio de 2025, de que a nossa legislação sobre uso de celulares é uma das melhores do mundo.
“Durante minhas visitas aos municípios paranaenses, tenho recebido relatos de diretores e professores sobre mudanças significativas no ambiente escolar. Me gratifica ouvir que as crianças voltaram a brincar e interagir no recreio, recuperando habilidades sociais que estavam sendo prejudicadas pelo uso excessivo das telas”, afirma.
Relato semelhante faz a diretora Viviane Soares Jordano, da EMEF Padre Serafin Martinez Gutierrez, em São Paulo. “Antes da lei, o celular era utilizado de forma desmedida, mesmo já havendo cobranças reiteradas dos professores, mas a lei trouxe maior respaldo a essas cobranças. Os embates também diminuíram, pois, com a lei, deixou-se de debater com os docentes sobre querer ou não guardá-los, haja vista a obrigatoriedade legal.”
A mudança não foi só na escola, conta Diego Garcia. “Também recebo relatos de pais que notaram mudanças no comportamento dos filhos em casa, com maior disposição para conversas familiares e atividades que não envolvem telas. A lei impacta o bem-estar e fortalece os vínculos familiares.”
O diretor da Escola Estadual Padre Saboia de Medeiros, Vilso Giron, percebeu isso nitidamente. “Antes, nos intervalos, havia muitos subgrupinhos. A proibição forçou o relacionamento interpessoal. Os alunos passaram a praticar esportes, ler livros. Criamos até um campeonato de xadrez”, afirma.
Entre o controle e a autonomia
Com a sanção da lei, estados deram às escolas autonomia para decidir como organizar o armazenamento e o controle do uso dos celulares. Essas orientações foram definidas em parceria com o Ministério da Educação.
“As adaptações físicas foram mínimas: aquisição de caixas para os aparelhos e de um armário para armazená-los. Algumas sinalizações informativas foram espalhadas pela escola, mas a chave do sucesso foi o diálogo”, conta Mário Fioranelli, diretor do Ensino Fundamental II e Ensino Médio do Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo.
A lei permite que os estudantes guardem nas mochilas, mas a prática não é recomendada por especialistas. “Muitos alunos são viciados, e é como se, em uma clínica para dependentes de heroína, você dissesse aos pacientes que podem guardar a droga na mochila. Muitos vão acabar indo ao banheiro para usar”, disse Jonathan Haidt à Folha.
Em nota, a Secretaria de Educação do Espírito Santo afirmou que faz isso em conversa com familiares e não há punições aos estudantes em caso de uso inadequado dos aparelhos. A ideia é que os alunos aprendam um uso consciente da tecnologia.
O colégio Gracinha, em São Paulo, opta desde 2024 pela regulação do uso. “Proibir totalmente cria um tabu que não acreditamos. A tecnologia está presente na vida, tem suas vantagens, inclusive pedagógica. Eles precisam aprender essa autorregulação”, afirma a coordenadora do Ensino Fundamental, Sandra Cirillo.
Desde que passou a adotar o recolhimento dos celulares, o Gracinha observou uma mudança na concentração dos estudantes e no interesse deles pelo aprendizado. No início, teve aluno que quase desmaiou ao ter que ficar longe do aparelho. Depois, houve casos de adolescentes que até esqueceram o celular no colégio no final de semana.
O diretor Vilso Giron sente os benefícios da tecnologia no dia a dia escolar. “Foi uma luta ter computadores e internet dentro das escolas estaduais. O momento pedagógico com essas ferramentas possibilitou aulas mais dinâmicas e vivas”, relata. Ele vê que o mesmo processo pode ser feito com os celulares – a lei de fato permite o uso pedagógico e para alunos com necessidades especiais. Por isso, Vilso intensificou o diálogo com pais e alunos para ter um novo combinado sobre os celulares.
Para Daniel Helene, coordenador do Ensino Fundamental no colégio Vera Cruz, também de São Paulo, o aumento do uso de celulares não teve impacto apenas da pandemia, mas também de uma ampliação de mercado: estudantes cada vez mais novos passaram a ter um aparelho.
Em 2022, ele notou um aumento da preocupação das famílias sobre o alastramento do uso de celulares pelos adolescentes. “Os pais têm que ser conscientes do risco de deixar um aparelho, com todas as suas potencialidades, livremente na mão das crianças. É preciso mostrar que há perigos no mundo externo e no mundo virtual. Eles precisam ocupar um papel de destaque na alfabetização digital. Sozinhos, nem escola nem família vão resolver o problema”, afirma.
O coordenador do Vera Cruz defende que os estudantes sejam ouvidos. “É uma ilusão achar que eles vão ser totalmente contra a proibição. Eles são capazes de pensar com complexidade sobre o tema, de entender o que compartilham na internet”, afirma Daniel.
No livro “A Geração Ansiosa”, Jonathan Haidt faz uma série de recomendações aos pais, alunos e escolas, mas bate principalmente na tecla de oferecer brincadeiras sem supervisão. É o que faz o colégio Ágora, em Cotia, na Grande São Paulo, há mais de 40 anos. “Desde que surgiram celulares, eles foram tratados como objetos estranhos à escola, tanto quanto brinquedos eletrônicos ou quaisquer outro aparelho. A comunicação casa-escola e vice-versa sempre foi feita através dos telefones fixos da escola. A escola é lugar de trabalhar, conviver, inventar, criar, brincar. Sem celular”, afirmou a secretaria da escola, em nota.
É inegável o alívio por parte dos educadores com a nova lei. Não que tudo seja perfeito. Professores da rede estadual de São Paulo, que não quiseram se identificar, relataram reações às vezes agressivas por parte dos alunos na hora de deixar os celulares, o que demonstra que muito diálogo ainda precisa ser feito.
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