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De "Parque dos Pesadelos" à Melhor Escola do Mundo
A história de Régis Marques, o diretor que transformou dor em sonho coletivo em uma escola pública da periferia de Cubatão
Ouvir:
- Transformação da E. E. Parque dos Sonhos, em Cubatão, de escola violenta a referência mundial.
- A gestão do diretor Régis Marques combina acolhimento, participação da comunidade e cultura de paz.
- Indicadores disparam: mais matrículas, salto em desempenho e queda de ocorrências e evasão.
- A escola é eleita Melhor Escola do Mundo e se prepara para ampliar projetos e número de alunos.

As três decisões iniciais
Quando Régis Marques chegou à Escola Estadual Parque dos Sonhos, em 2016, encontrou um prédio pichado, depredado e esvaziado. A violência era constante. A comunidade olhava para a escola com desconfiança. O apelido corrente no bairro resumia o clima: Parque dos Pesadelos.
Os números confirmavam o abandono. Em 2014, eram cerca de 380 alunos. No ano seguinte, 240. Quando Régis assumiu, restavam apenas 116 estudantes. A escola estava ameaçada de fechar.
"Eu acreditava na educação como forma de transformação. Não dava para deixar a escola acabar ", conta. Na época, ele fazia diariamente o trajeto entre São Paulo e Cubatão, subindo e descendo a serra enquanto ouvia a pressão da supervisão.

Régis resume em três decisões os primeiros passos da mudança. Primeiro, definir o papel social da escola: ser um ponto de radiação da paz e da não violência. Segundo, estabelecer uma meta ousada: tornar o Parque dos Sonhos a melhor escola do estado em cinco anos. Terceiro, praticar gestão democrática de verdade, ou seja, escutar estudantes, professores e a comunidade escolar antes de tomar qualquer decisão.
Liderar pelo exemplo
Mais jovem que a maioria dos professores, ele enfrentou resistência. Faltava dinheiro para projetos. Em uma reunião, sugeriu enviar ofícios a empresas pedindo apoio. A resposta foi cética.
Ele então elaborou uma lista com 135 empresas, escreveu 135 ofícios e pagou o envio do próprio salário. Apenas uma empresa respondeu, mas o gesto mudou a percepção da equipe. "A galera passou a ver que o diretor não só falava, ele fazia", afirma.

Acolhimento e disciplina
A nova gestão começou pelo acolhimento. "A criança precisa se sentir acolhida, respeitada, saber que tem voz e que é querida", diz Régis.
Quando um aluno comete alguma infração, ele busca o diálogo. Pergunta se a escola é ruim, se já o humilhou, para depois questionar o comportamento e oferecer ajuda.
A regra central construída com as turmas é simples: "Vocês podem fazer o que quiserem desde que não atrapalhem as aulas e não machuquem ninguém." A única proibição absoluta é a violência.

Professores protagonistas
Em vez de impor projetos prontos, a direção passou a perguntar o que os docentes queriam fazer e como planejavam executar. Uma vez por mês, a equipe se reúne para formação e escuta. Críticas são acolhidas e discutidas.
Ele também cuida da linguagem. Sempre que alguém fala "meu aluno", corrige: "é nosso aluno, nossa escola. Eu, enquanto diretor, sou só uma passagem."

Aproximação com as famílias
Durante anos, a comunidade descontava na escola as revoltas contra o poder público. Para mudar esse cenário, a direção criou projetos como o Chá das mães e o A escola vai à sua casa, além de semanas temáticas ao longo do ano: da mulher, do meio ambiente, da diversidade, da não violência, da consciência negra, entre outras.
A escola adota a não violência ativa como método, trabalhando a empatia, ubuntu e a escuta. A tutoria oferece espaço para que estudantes falem sobre situações que impactam sua vida. As grades que faziam o prédio parecer um presídio vêm sendo retiradas aos poucos.

Resultados que falam
Em cinco anos, o número de alunos cresceu cerca de quatro vezes, de 116 para aproximadamente 480 matrículas. Os índices de desempenho subiram de 2,27 para 4,5 entre 2017 e 2019. As ocorrências policiais caíram 80% e a evasão foi zerada.
Em 2019, Régis afirmou que o Parque dos Sonhos já era a melhor escola do estado. "Que outra escola cresceu 400 por cento em cinco anos, dobrou índices e reduziu violência e evasão de forma tão drástica?", questionou.
Melhor Escola do Mundo
Em 2025, a escola foi inscrita no prêmio Melhor Escola do Mundo, da T4 Education, e venceu. A notícia foi comemorada com festa pela comunidade escolar. Alunos que anos antes andavam de cabeça baixa hoje se reconhecem como protagonistas de uma experiência de referência global.
O título multiplicou visitas, convites e responsabilidades. A unidade se prepara para atender cerca de 1.200 alunos a partir do próximo ano, do primeiro ano do fundamental ao terceiro do médio, com o objetivo de colocar todos em universidades. A equipe também pensa na criação de uma Rede Escolas dos Sonhos.
Para Régis, o reconhecimento apenas confirma algo já sentido: "Para mim, a gente já era a melhor escola do mundo antes do prêmio. O título só confirmou aquilo que a comunidade, os alunos e os professores já sentiam: que a escola pública, quando é espaço de paz, afeto e pertencimento, pode mudar tudo."
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