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Da periferia ao Ministério da Educação: como um professor transformou gibis em ferramenta pedagógica nacional
De filho de empregada doméstica a pesquisador referência em histórias em quadrinhos e educação, Fábio Paiva construiu, com o EduQuadrinhos, uma ponte entre a sala de aula, a universidade e as políticas públicas
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- Fábio Paiva, filho de empregada doméstica e morador da periferia, tornou-se professor da UFPE e pesquisador em HQs e educação.
- Criou o EduQuadrinhos, que divulga pesquisas, forma docentes e produz materiais didáticos com gibis.
- Projetos alcançam escolas públicas, prêmios nacionais e o MEC, ajudando a legitimar quadrinhos como recurso pedagógico.
- Rumo aos 10 anos de projeto, segue inspirando novos pesquisadores e ampliando o uso de HQs nas políticas públicas.

"Da periferia ao Ministério da Educação." É assim, rindo e resumindo a própria trajetória, que o professor Fabio da Silva Paiva se apresenta. Filho de empregada doméstica, morador da periferia e trabalhador desde os 13 anos de idade, ele completa 20 anos de atuação na educação carregando uma convicção: histórias em quadrinhos não são apenas entretenimento, também são ferramentas potentes de aprendizagem, crítica social e acesso à cultura.
Hoje professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atuando no Ministério da Educação (MEC) desde 2023, Fábio é o criador do EduQuadrinhos, projeto que se tornou referência nacional ao aproximar gibis do cotidiano de escolas, professores e pesquisadores.
Da periferia à sala de aula

Antes de chegar ao Ensino Superior, Fábio construiu sua reputação na educação básica. Como professor de Geografia, foi duas vezes vencedor do prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita e Revista Nova Escola, em 2007 e 2008. O reconhecimento veio por projetos inovadores, usando jogos em sala de aula para aproximar os conteúdos da realidade dos estudantes.
Em 2006, ainda bem longe dos holofotes acadêmicos, ele fundou uma gibiteca escolar na Escola Cooperativa de Piracicaba, muito provavelmente uma das primeiras do país. Ali, num espaço dedicado aos quadrinhos, os gibis deixavam de ser vistos como distração e passavam a compor o acervo pedagógico da escola.
"São quase 20 anos utilizando quadrinhos na educação e 17 anos pesquisando sobre o tema", conta o professor. A prática veio primeiro; a pesquisa, em seguida, ajudou a sistematizar um caminho que ele já vinha trilhando intuitivamente com os alunos.
Quando a pesquisa encontra os gibis
O ponto de virada acontece em 2009, quando Fábio inicia o mestrado em Educação. Ele sabia que havia muita produção acadêmica sobre histórias em quadrinhos e educação, mas descobrir isso na prática não foi simples.
"O EduQuadrinhos começou quando percebi que havia muito material acadêmico, muita coisa produzida sobre o uso de quadrinhos na educação, mas em 2009, quando comecei o mestrado, tive dificuldade de encontrar esses materiais. Era mais difícil... isso me provocou a querer divulgar esses estudos", relembra.
Da inquietação nasceu um propósito: tornar acessível o que estava disperso em teses, dissertações, artigos e livros. O primeiro passo foi publicar seu mestrado em forma de livro, em 2013. Em seguida, vieram outros títulos e uma presença crescente nas redes sociais, onde Fábio passou a comentar pesquisas, indicar materiais e dialogar com educadores interessados em usar HQs em sala de aula.
Foi apenas em 2016 que esse movimento ganhou nome e identidade: EduQuadrinhos, a junção direta entre "Educação" e "Quadrinhos", que batizou tanto o projeto quanto os perfis nas redes.
Nasce o EduQuadrinhos
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Desde então, o EduQuadrinhos deixou de ser apenas uma iniciativa pessoal de divulgação e passou a se consolidar como um projeto com múltiplas frentes: pesquisa, formação docente, produção de materiais didáticos e participação em eventos de grande porte.
Os livros publicados sobre o uso de quadrinhos na educação já venderam mais de 3 mil exemplares. Fabio realizou dezenas de palestras, cursos e formações pelo Brasil, além de marcar presença em eventos como a CCXP, Bienal de Quadrinhos, Bienal do Livro e diversas feiras literárias e acadêmicas.
Os quadrinhos produzidos especificamente para uso educacional foram adotados pela rede municipal de ensino do Recife e por escolas particulares. O projeto também participa de publicações importantes, ao lado de pesquisadores como Wilson Chiarelli (em obras publicadas pela editora da UFPE), e integra obras apoiadas pelo Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) do Recife, como a coleção Ilustres, que traz histórias em quadrinhos sobre figuras como Josué de Castro, lançado em 2023, junto de Adriano dos Anjos, Bruno Alves, Eron Villar, Lua, Luciano Félix e Thaïs Kisuki e Capiba, lançado em 2025, junto de Bennê Oliveira, Bruno Alves, Eron Villar, Helô D'Angelo, Luciano Félix, Melisandret e Thaïs Kisuki.
"Não sei quantas pessoas foram impactadas, mas estimo que sejam muitas", diz Fábio, com a humildade de quem sabe que o alcance já vai bem além da própria contagem.
Do preconceito ao reconhecimento
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Por muito tempo, quadrinhos foram vistos como uma leitura "menor", coisa de criança ou mero passatempo. Esse preconceito atravessou escolas e universidades, e Fábio sentiu isso tanto na prática docente quanto na pesquisa.
"Ainda existe, mas diminuiu bastante", avalia. Ele faz questão de não atribuir essa mudança apenas ao EduQuadrinhos, embora reconheça que o projeto tenha ajudado a oxigenar o debate.
Hoje, vários fatores contribuem para um cenário mais favorável: o reconhecimento dos quadrinhos como obras elegíveis ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); o aumento expressivo de pesquisadores dedicados ao tema; e a circulação mais ampla de HQs em contextos formais de ensino.
Tudo isso faz com que histórias em quadrinhos estejam, pouco a pouco, deixando o canto da biblioteca e ocupando o centro da sala de aula.
Quando os autores encontram os estudantes
Entre tantos eventos e experiências acumuladas ao longo da trajetória do EduQuadrinhos, Fábio destaca um momento em especial: ver os quadrinhos que produziu sendo usados pela rede municipal de Recife.
"Foi muito significativo ver a rede municipal de Recife utilizando os quadrinhos que produzimos. Eu e os demais autores (Ernani Ribeiro e Anderson Queiroz) fizemos palestras para professores e estudantes e todas foram muito marcantes, pois eram alunos da escola pública, conhecendo autores e com os livros nas mãos", conta.
Nesse encontro entre autores e estudantes da escola pública, os quadrinhos deixam de ser apenas conteúdo escolar e vira também experiência afetiva: é o estudante que se vê representado, que segura o livro, que descobre que pode ser leitor e, quem sabe, produtor de histórias.
Uma geração inspirada em quadrinhos
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Outro efeito poderoso do EduQuadrinhos aparece na formação de novos pesquisadores. Ao longo dos anos, Fábio percebeu que suas aulas, palestras e materiais passaram a inspirar professores e professoras em formação a escolherem as histórias em quadrinhos como objeto de pesquisa.
"Também me marcou muito ter inspirado vários professores e várias professoras em formação, que escolheram pesquisar histórias em quadrinhos e hoje fazem parte de programas de pós-graduação e até do grupo de pesquisa do EduQuadrinhos", comemora Fábio.
Se no começo ele tinha dificuldade para encontrar referências acadêmicas sobre o tema, agora ajuda a formar a próxima geração de pesquisadores e pesquisadoras que vão ampliar ainda mais esse campo.
Rumo aos 10 anos de projeto
O ano de 2026 marca uma data simbólica: os 10 anos do EduQuadrinhos. E Fábio já está pensando em como celebrar essa década de trabalho.
"Em 2026 o EduQuadrinhos completa 10 anos e estou preparando um novo site, o lançamento de uma história em quadrinhos e talvez um evento comemorativo. Preciso ver se vai dar tempo!", brinca.
Entre as salas de aula, os corredores da UFPE, as reuniões no MEC e a publicação de conteúdo nas redes sociais, o professor que saiu da periferia e ajudou a levar os gibis para o centro da discussão educacional brasileira segue com a mesma inquietação que o moveu em 2009: fazer com que o conhecimento circule.
Se antes os quadrinhos eram vistos apenas como passatempo, hoje, graças a trajetórias como a dele e a iniciativas como o EduQuadrinhos, eles são reconhecidos como uma linguagem complexa capaz de ensinar, emocionar e transformar.
Da periferia ao Ministério da Educação, passando por gibitecas escolares, prêmios nacionais e milhares de alunos e professores impactados, a história de Fábio Paiva mostra que, às vezes, um gibi na mão de um estudante vale por muitas páginas de teoria e que quando a escola abre espaço para novas linguagens, quem ganha é a educação como um todo.
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