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Avaliações internacionais no Brasil: Conheça sobre PISA, TIMSS, PIRLS...
Os países mais bem posicionados nos sistemas internacionais de avaliação educacional, como PISA, TIMSS e PIRLS, apresentam diferentes modelos e realidades, mas compartilham um ponto central: a educação é prioridade, apoiada por políticas públicas eficazes e melhores práticas educacionais.
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- Liderança de Singapura: referência mundial em benchmark educacional.
- Tendências em educação: países da OCDE apontam lições internacionais em gestão, currículo e formação docente.
- Brasil em foco: necessidade de avanços, com destaque para Sobral como exemplo de política pública eficaz.
- Síntese: a educação comparada evidencia práticas que podem inspirar melhorias nacionais.
Mas, além do bom posicionamento, eles têm outros pontos em comum: o principal deles, e do qual derivam todos os outros, é que a educação é prioridade.

Olhar para fora em busca das melhores referências faz bem e deveria ser um hábito, mas não com a postura acanhada de quem acha que não sabe nada e nada tem a ensinar. Ao contrário, olha-se com a cabeça erguida de quem está consciente de que sempre pode aprender mais. Referências internacionais são bem-vindas, mas o Brasil também tem lições valiosas a oferecer, como acontece com Sobral, no Ceará.
Entre o final da década de 1990 e o começo dos anos 2000, o munícipio que sofria com altas taxas de analfabetismo e evasão escolar empreendeu uma transformação pedagógica e administrativa tão impactante que hoje tem índices educacionais de fazer inveja, como o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Ensino Fundamental, que avalia a qualidade do aprendizado em Matemática e Língua Portuguesa. Enquanto a nota média do país ficou em 6 para os anos iniciais e 5 para os anos finais, Sobral teve 9,6 e 7,9, respectivamente. Os avanços foram tão significativos que a cidade cearense se tornou modelo dentro e fora do país (ver quadro De Sobral para o Ceará, o Brasil e o Mundo).
Os sistemas internacionais de avaliação educacional
Se nós temos exemplos para oferecer ao mundo, o mundo também é rico em exemplos para nós, a começar pelos países que melhor se saem nos sistemas internacionais de avaliação da educação.
O mais conhecido deles, vigente desde o ano 2000, é o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), realizado a cada três anos pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). A última edição, em 2022, envolveu 81 países, incluindo o Brasil. A ideia é avaliar a capacidade que estudantes de 15 anos (que estão encerrando o ciclo básico da educação) têm de usar seus conhecimentos e habilidades em Matemática, Ciências e Leitura para resolver situações da vida real.
Por meio da análise de questionários preenchidos pelos jovens, o PISA ainda consegue relacionar o desempenho dos estudantes com fatores familiares, socioeconômicos, educacionais e demográficos, que ajudam a identificar padrões, analisar influências externas, compor um cenário mais amplo e formular políticas educacionais mais eficazes. Na edição 2022 do PISA, a média brasileira em Matemática foi de 379 pontos (contra os 472 da média OCDE); a de Ciências, 403 (média OCDE 485); e a de Leitura, 410 (média OCDE 476).
Já o TIMSS (Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências, na tradução para o português), lançado em 1995 pela IEA (Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional, na sigla em inglês), é aplicado a cada quatro anos e, em 2023, incidiu sobre 64 nações e seis economias de referência (como Xangai e Macau) – entre elas, o Brasil, pela primeira vez. Em foco, os conhecimentos de Matemática e Ciências de estudantes do ensino Fundamental. Os estudantes brasileiros do 4º ano tiveram média de 425 pontos em Ciências (a média internacional foi de 494) e 400 em Matemática (média internacional de 503). Os do 8º ano, por sua vez, registraram média de 420 pontos em Ciências (contra os 478 da média internacional) e 378 em Matemática (média internacional de 478).
Também de responsabilidade da IEA e realizado a cada cinco anos, existe o PIRLS (Estudo Internacional de Progresso em Leitura), que desde 2001 apura a capacidade de leitura e compreensão entre estudantes do 4º ano do Fundamental. Em 2021, primeira participação do Brasil, o PIRLS envolveu 65 países ou economias de referência, e nós tivemos nota média 419 (o PIRLS não fornece uma média internacional).
O que as avaliações indicam
Apesar de diferentes entre si, os três sistemas de avaliação revelaram, em sua última edição, o predomínio absoluto de Singapura sobre os demais países. A cidade-estado no sudeste da Ásia ocupou o ponto mais alto do pódio em todos os rankings. A depender do sistema de avaliação, da competência em questão e do estágio educacional, na sequência alternam-se outras economias asiáticas, como Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Japão e Taipei Chinesa, algumas nações da Europa, a exemplo de Irlanda, Finlândia e Estônia, além de Canadá, Estados Unidos e Austrália.
“A chave que a gente sempre precisa ter em mente é que países com processos de desenvolvimento econômico conseguem construir bons sistemas de ensino, porque a educação faz parte desse projeto de desenvolvimento”, afirma Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador honorário da CNED (Campanha Nacional pelo Direito à Educação).
Esse raciocínio, segundo o especialista, explica tanto os casos das nações asiáticas, como o da Finlândia, que precedeu Singapura como destaque educacional absoluto até o início dos anos 2010. “A Finlândia teve um projeto de predomínio nas telecomunicações que era liderado pela Nokia. Esse projeto perdeu o fôlego por causa da concorrência internacional, especialmente a chinesa, e o país teve uma queda nas avaliações de larga escala.”
Atualmente, outra nação báltica, a Estônia, está galgando posições nos rankings educacionais, o que Daniel Cara relaciona com o estágio econômico estoniano. “O país vive um momento muito positivo em termos de visão sobre o meio ambiente, com grandes pesquisas científicas e um centro de referência do hidrogênio verde [combustível do futuro, produzido de forma limpa a partir da eletrólise da água]”. O especialista também destaca o Vietnã, que investe em uma nova política industrial ao mesmo tempo que avança em termos educacionais.
Na opinião de Ernesto Faria, diretor executivo do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) e especialista em avaliação de políticas públicas educacionais, “não há nenhuma fórmula mágica adotada. Mas esses países que se saem melhor partem de garantir a coesão, um bom modelo de gestão e um trabalho pedagógico a partir de dados, de sistemas de avaliação.” Outro aspecto destacado por Faria é o estímulo recebido fora da escola, em casa, com famílias que apoiam e incentivam a educação. “Nos países asiáticos, a escola atende um objetivo da família. A gente pode até discutir se é uma preocupação exagerada, mas o fato é que há um ambiente de forte valorização da educação e isso faz muita diferença.”
Outro ponto em comum entre a maioria das nações mais bem classificadas seria a valorização do docente, na análise de Claudia Tamassia e Miyako Ikeda, respectivamente gerente de projeto sênior e analista sênior da Diretoria de Educação da OCDE, que aplica o PISA no mundo: “Em muitos sistemas de alto desempenho, a profissão de professor é tratada como uma carreira de alto status, seletiva e bem apoiada”.
No livro World Class: How to Build a 21st Century School System (em tradução livre, Aula Mundial: Como Construir um Sistema Escolar do Século 21, de 2018), Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, escreve: “Em nenhum lugar a qualidade de um sistema escolar supera a qualidade de seus professores. Os melhores sistemas escolares selecionam e educam seu corpo docente criteriosamente. Eles aprimoram o desempenho dos professores com dificuldades e estruturam a remuneração dos docentes para refletir os padrões profissionais. Proporcionam um ambiente no qual os professores trabalham juntos para estruturar boas práticas e os incentivam a crescer em suas carreiras”.
Práticas em comum e de sucesso na educação
As representantes da OCDE, Claudia Tamassia e Miyako Ikeda, listam as principais similaridades positivas entre os países que encabeçam o PISA. E nós explicamos os itens com informações colhidas durante a reportagem:
A educação é prioridade da sociedade e do estado
“Uma educação de qualidade não passa só pelos componentes de dentro da escola. É preciso um papel mais ativo dos pais: de incentivo, de apoio e proximidade com a escola. Para ter algum tipo de cobrança, é preciso estar inteirado do trabalho educacional feito com os alunos”, afirma Faria, do IEDE.
Consistência de ideias e continuidade
“Sejam mudanças no currículo ou no financiamento, ou uma forma diferente de apoiar os professores, essas várias partes do processo precisam caminhar na mesma direção – rumo a uma visão coerente”, argumenta Andreas Schleicher no livro World Class.
Impera o pressuposto de que todos os alunos podem aprender e alcançar altos níveis de desempenho
Schleicher compara a Finlândia e a Estônia, considerada a “nova Finlândia”, por nos últimos anos ter entrado no TOP 10 do PISA com suas altas notas em Ciências, Matemática e Leitura: “Ambas, seja por estratégia ou inclinação cultural, possuem um forte senso de equidade em seus sistemas educacionais. Isso se manifesta nas pequenas diferenças entre os resultados de estudantes ricos e de estudantes desfavorecidos”. É uma caraterística que aproxima esses dois países nórdicos de Canadá, Hong Kong e Noruega e os afasta de Alemanha, Áustria e França, “onde havia uma ligação muito mais forte entre o status socioeconômico e o desempenho dos alunos”, informa o autor.
A partir da definição de padrões, eles estabelecem altas expectativas
Faria comenta: “Não há política educacional que seja efetiva sem um currículo que traga altas expectativas e que oriente bem o sistema educacional e as ações a partir desse currículo: bons materiais didáticos, um bom sistema de avaliação e boas políticas de formação dos professores que se baseiem nas avaliações e nos dados sobre os alunos.”
Aplicação do orçamento com sabedoria
Os valores despendidos na educação só fazem diferença até certo ponto, de acordo com Claudia e Miyako, da OCDE: “Há uma relação positiva entre investimento em educação e desempenho médio até o limite de US$ 75.000 [cerca de R$ 420 mil em julho de 2025] em gastos acumulados por aluno dos 6 aos 15 anos”. Com base nos dados levantados pelo PISA, as especialistas afirmam que, “após esse nível, quase não há relação entre investimento extra e desempenho”.
Há políticas para recrutar e reter professores de alta qualidade, que têm independência e responsabilidade
Na Finlândia, por exemplo, estudantes que encerram o Ensino Médio com altas notas vão cursar Pedagogia e, para dar aulas na educação básica, precisam ter mestrado. No mestrado, desenvolvem a capacidade de pesquisar e, assim, espera-se que, no trabalho em sala de aula, atuem como pesquisadores, testando novas ideias, dispensando as que não funcionam e aprimorando as outras. Além disso, professores experientes treinam os mais jovens para lecionar. Já em Singapura, os docentes têm direito a 100 horas de desenvolvimento profissional por ano para se manterem atualizados em sua área e melhorarem suas práticas, de acordo com a publicação World Class. Para Faria, do IEDE, é fundamental que haja a observação das aulas, de modo que o docente possa receber suporte e não punição. “A avaliação qualitativa do que está acontecendo em sala de aula é um elemento muito importante e aí vêm as políticas de acompanhamento.”
O tempo dos professores é bem aproveitado
“Enquanto os docentes no Brasil e nos Estados Unidos têm pouco tempo para outras coisas além de ensinar, seus colegas no Japão e no Vietnã têm uma fração de sua carga horária [em sala de aula] e podem dedicar bastante tempo a outras atividades além do ensino, como trabalhar com alunos individualmente, com os pais e, principalmente, com outros professores”, compara o diretor de Educação e Habilidades da OCDE.
Professores e pais se alinham quanto ao bem-estar de cada criança e aos estímulos que ela deve receber
Segundo Schleicher, em muitos países da Europa e da Ásia, há docentes designados para acompanhar os estudantes ao longo de várias séries. “Eles assumem certa responsabilidade pelos alunos de sua turma e estabelecem um relacionamento próximo não apenas com esses, mas também com os pais.” Ao mesmo tempo que essa prática é comum nos dois continentes, o que difere, muitas vezes, é o sentimento de bem-estar que as crianças têm. Entre os países TOP 10 do PISA de Ciências e de Matemática, os estudantes finlandeses, estonianos e suíços têm altas notas e prazer de viver, enquanto os asiáticos, em geral, sentem menos satisfação com a vida, em função das longas horas de estudo e do alto nível de competição no ambiente escolar.
Existe foco no desenvolvimento de líderes educacionais competentes
Em World Class, Schleicher escreve: “A revisão comparativa da OCDE sobre a liderança escolar identifica quatro grupos de responsabilidades de liderança inter-relacionadas como centrais para melhorar os resultados da aprendizagem: apoiar, avaliar e desenvolver a qualidade dos professores (...); estabelecer objetivos de aprendizagem e avaliações para ajudar os alunos a atingir altos padrões (...); utilizar recursos estrategicamente e alinhá-los com a pedagogia (...); e construir parcerias além da escola para promover maior coesão entre todos aqueles preocupados com o sucesso e o bem-estar de cada criança(...)”.
A responsabilização profissional se sobrepõe à responsabilização administrativa
Segundo o autor, nos lugares em que isso ocorre, “os professores são responsáveis não tanto perante as autoridades administrativas, mas principalmente perante seus colegas professores e diretores de escola. (...) a responsabilização profissional também inclui o tipo de responsabilidade pessoal que os professores sentem perante seus pares, seus alunos e os pais de seus alunos”.
Buscam e encontram o nível certo de autonomia escolar
“Os sistemas escolares que proporcionam às suas escolas maior liberdade nas avaliações dos alunos, nos cursos oferecidos, no conteúdo e nos livros didáticos tendem a ser os sistemas escolares com desempenho mais alto no PISA, independentemente da natureza causal dessa relação”, afima Schleicher.
Vale num lugar, mas não no outro
Se as nações no TOP 10 do PISA, do PIRLS e do TIMSS trabalham de modo parecido com os aspectos descritos até aqui, elas também apresentam divergências gigantes em relação a outros pontos. Quer ver?
Investimento em educação
Muito dinheiro não se traduz obrigatoriamente em maior nível de aprendizado, como já afirmado pelas especialistas da OCDE. Estudantes de Luxemburgo e da Hungria apresentam igual desempenho no PISA. Mas enquanto o primeiro país investe, em média, US$ 187 mil na formação dos 6 aos 15 anos, o segundo gasta US$ 47 mil.
Horas de estudo
Em World Class, Andreas Schleicher faz algumas comparações a fim de desfazer o mito de que estudar mais é garantia de melhor resultado. Ele conta que, no PISA 2015, Japão e Coreia do Sul se saíram igualmente bem em Ciências. No entanto, enquanto os japoneses passaram cerca de 41 horas semanais aprendendo (28 horas na escola e 14 horas depois da escola), os coreanos gastaram 50 horas no total (30 horas na escola e 20 horas no contraturno).
Apesar de Tunísia, Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong (os quatro municípios e províncias da China que participaram do PISA 2015) compartilharem a mesma carga horária semanal de estudo – 30 horas na escola e 27 horas depois dela – a Tunísia marcou 367 pontos em Ciências no PISA de 2015, enquanto a média dos chineses dessas regiões foi de 531 pontos.
Enquanto isso, a Finlândia teve a melhor relação nota por hora de estudo em Ciências, 14,7. Isso significa que, para o país alcançar 531 pontos no PISA daquele ano, os jovens estudaram por 24,2 horas semanais dentro da sala de aula e mais 11,9 horas fora dela.
Como o diretor de Educação e Habilidades da OCDE diz em seu livro, “o que diferencia os países de alto desempenho [no PISA] não é sua localização, riqueza ou cultura. O que os diferencia é sua profunda consciência do baixo desempenho e das desigualdades em seus sistemas educacionais, bem como sua capacidade de mobilizar recursos, inovação e disposição para combatê-los”.
MELHORES PRÁTICAS
Enquanto todos os olhos costumam se voltar para o seleto grupo dos 10 melhores de cada avaliação, o capítulo 6 do relatório do PISA 2022 traz uma observação interessante para países que trabalham por uma melhoria contínua de seus índices educacionais: “Considerando os resultados de todas as avaliações do PISA até 2022, quatro países e economias apresentaram melhora em todas as três disciplinas: Colômbia, Macau (China), Peru e Catar. Quatro outros países (Israel, República da Moldávia, Singapura e Turquia) apresentaram melhora em duas das três disciplinas. Daniel Cara, da CNED, ainda chama a atenção para a República Dominicana, que só aderiu ao PISA em 2015, mas onde os piores estudantes em Matemática vêm rapidamente reduzindo a brecha que os separa dos melhores.
Boas práticas em educação evidenciadas pelas avaliações internacionais:
Educação é prioridade central para governos e sociedades, com envolvimento ativo das famílias.
Consistência e continuidade nas políticas públicas, currículos e financiamento educacional.
Alta expectativa de aprendizado para todos os alunos, com foco em equidade.
Valorização e carreira de alto prestígio para professores, com formação contínua e suporte qualificado.
Gestão escolar eficiente e autonomia das escolas para adaptar currículo e avaliações.
Alinhamento entre professores e famílias para promover o bem-estar e desenvolvimento integral dos alunos.
Liderança escolar focada no desenvolvimento profissional, estabelecimento de metas altas e uso estratégico de recursos.
Responsabilização profissional dos professores, baseada em colaboração e compromisso com a aprendizagem.
Uso inteligente do orçamento, investindo até níveis estratégicos que impactam positivamente no desempenho.
De Sobral para o Ceará, o Brasil e o mundo
Em 2005, a educação ia tão mal em Sobral que a sua rede pública teve notas 4,9 no IDEB dos anos iniciais do Fundamental e 4,0 nos anos finais. Em 2023, quase duas décadas depois, esses números subiram para 9,6 nos e 7,9, respectivamente. Se for considerado o total de municípios brasileiros, Sobral fica no Top 10 dos mais bem colocados, com o 6º e o 8º lugares, respectivamente. Já entre as cidades com mais de 70 mil habitantes, Sobral é líder no Ensino Fundamental.
Observando-se o ICA (Indicador Criança Alfabetizada), em 2024, o município cearense registrou a alfabetização em idade correta de 98,58% de todas as suas crianças (um pouco menos que em 2023, com 98,7%). Tanto esse índice quanto o IDEB são de responsabilidade do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão vinculado ao Ministério da Educação.
O sucesso de Sobral referenciou as políticas educacionais do Ceará, que, em 2024, foi o estado campeão em alfabetização em idade correta, com taxa de 85,3%. No IDEB de 2023, o Ceará ocupou o 1º lugar nas duas etapas do Ensino Fundamental da rede pública (com notas 6,5 nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais), empatado com o Paraná. Na avaliação do Ensino Médio, a nota 4,6 das escolas públicas garantiu ao estado nordestino a 3ª posição no ranking, num empate com Pernambuco.
O que aconteceu com Sobral e com o Ceará passa longe de qualquer passe de mágica ou de tentar reproduzir modelos educacionais de outros países. Continuidade é palavra de ordem no ensino local. E há, ainda, o aspecto do projeto de desenvolvimento econômico, como afirma Daniel Cara, da CNED: “A partir da década de 1990, a cidade e o estado viveram uma espécie de revolução econômica. Eu não estou dizendo que concordo com os termos [dessa revolução], mas se trata de um processo de desenvolvimento econômico capitalista, que foi bem estruturado, com a atração de setores – setores estratégicos da indústria nacional, em que o Brasil tem competitividade – e isso foi capaz de desenvolver um resultado muito positivo”.
Houve um investimento na gestão escolar eficiente – com diretores escolhidos por critérios técnicos e não políticos –, na formação continuada dos professores, na elaboração de materiais didáticos de qualidade, na alfabetização até os 7 anos, na avaliação sistemática dos estudantes e no acompanhamento pedagógico daqueles que apresentam desenvolvimento aquém do esperado para sua faixa etária. O município e o estado também trabalharam com o ICMS de modo a fazer investimentos tanto nas escolas que demonstram maior eficiência quanto naquelas que estão alguns passos atrás da média. Além do desempenho nos rankings de avaliação, outro fruto colhido é a redução na desigualdade educacional entre crianças da zona rural e da malha urbana.
Estratégias do chamado “modelo Sobral de educação” já influenciaram políticas públicas estaduais e nacionais. A principal delas foi o programa de alfabetização até os 7 anos de idade, que, nascido nesse município, foi estendido a todo o estado em 2007 e, em 2012, inspirou o governo federal na criação do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (até os 8 anos). Encerrado no final de 2018, o Pacto serviu de base para outros programas parecidos – atualmente, vale o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. O Brasil, com apenas 59,2% dos alunos das escolas públicas alfabetizados até o 2º ano do Fundamental em 2024, precisaria estudar os bons exemplos, internos e externos, em busca de soluções que melhorem o aprendizado e elevem nossos índices educacionais.
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